Armando Soares #32: O homem contra o homem

O maior inimigo do homem tem sido durante milênios o próprio homem, uma verdade que não pode ser refutada por ninguém em nenhum momento da história universal. Esse é o maior problema a ser superado pela raça humana para que haja efetivamente avanço na Terra, um planeta manchado de sangue e impregnado de ódio desde os primórdios da civilização. Não busquemos nenhum outro culpado, o homem é o único culpado por todas as misérias, por todo o sofrimento, por todos os conflitos, por toda a discriminação e desamor que existe na Terra.  

Pesquisadores fizeram progredir a ciência por saltos sucessivos, por sobressaltos dolorosos, como Galileu e Copérnico, para fugir em seu tempo de perseguições de instituição religiosa cujo corpo dirigente tinha mentes fossilizadas, o que determinou a escravização de multidões e atrasou durante séculos o avanço da ciência e de civilizações, o que ainda ocorre em nossos dias com os físicos, biólogos e matemáticos através de governos e sociedades retrógadas.

O Universo está em constante evolução queiram ou não religiões que se perderam no tempo e homens ignorantes prepotentes. O estudo da história revela que toda civilização atravessa processos cíclicos: gênese, crescimento, apogeu, decadência e morte. Toynbee assevera que “a gênese de uma civilização é devida a um desafio que um grupo levanta em face do ambiente natural, social ou psicológico, provando assim uma resposta criativa que o levará a induzir um novo processo de civilização”. Outras pesquisas demonstram que o nascimento de uma civilização é provocado por um saber ou um conhecimento transmitido por uma raça em declínio, às vezes após a face de desintegração final. Depois de ter atingido seu apogeu, as civilizações tendem, pois a perder seu élan vital e a declinar. As estruturas se tornam rígidas, a tal ponto que a sociedade não pode mais fazer face às mudanças incessantes pela lei universal da evolução. O sistema “desafio-resposta”, que representa a saúde criadora de uma raça, desaparece pouco a pouco, dando lugar a modelos sociais e ambientais constrangedores e restritivos. A elite perde sua animação e seu dinamismo, enquanto a desmotivação e o medo do amanhã florescem nas camadas inferiores da sociedade. Em seu processo de degenerescência, as civilizações esquecem pouco a pouco as verdades fundamentais que fizeram sua força de outrora. O véu do esquecimento se abate sobre a memória da elite e o processo de desagregação final é estabelecido. A civilização perde sua alma e estoura nos quatro cantos da eternidade, a menos que seja dissolvida pelo dinamismo conquistador de outra raça, então no pico de sua glória. Só restam então os escritos, os monumentos abandonados, as tradições orais. Às vezes nem sobra nada. No primeiro caso estão os sumerianos, os egípcios, os gregos ou os astecas, e de certo ponto de vista os índios da América do Norte. No segundo caso, estão os celtas, dos quais não resta mais nada, senão fragmentos de saber, ou do continente mítico da Atlântica, que nem mesmo sabemos hoje se realmente existiu.

Mas, como conceituar civilização? Para Norbert Elias, o conceito de civilização é uma apropriação de um “termo nativo” (utilizado na França e na Inglaterra, a partir do século XVI, principalmente) e implica não só em uma realidade específica, empiricamente observável, como também em uma abstração teórica, um modelo de interpretação da história e da sociedade, entendida como um processo e constituída a partir de uma rede de interdependência funcional. O processo civilizador, segundo ele, manifesta-se numa cadeia de lentas transformações dos padrões sociais de auto-regulação e caminha “rumo a uma direção específica de forma não linear e evolutiva, mais de modo contínuo, com impulsos e contra-impulsos alternados”. A “civilização” também pode se referir à cultura de uma sociedade complexa, e não apenas à sociedade em si. Toda sociedade, civilizada ou não, tem um conjunto específico de ideias e costumes e um determinado conjunto de manufaturas e artes que a tornam única. As civilizações tendem a desenvolver culturas complexas, que incluem a literatura, a arte, arquitetura, uma religião organizada e costumes complexos associados à elite. A cultura complexa associada com a civilização tem uma tendência a se espalhar e influenciar outras culturas, às vezes, assimilando-as para dentro da civilização (um exemplo clássico foi o da civilização chinesa e sua influência sobre as civilizações próximas, tais como Coreia, Japão e Vietnã). Muitas civilizações são realmente grandes esferas culturais que englobam muitas nações e regiões. A civilização em que alguém vive é a mais ampla identidade cultural dessa pessoa. Muitos historiadores têm-se centrado nessas esferas culturais amplas e têm tratado as civilizações como unidades distintas. Um filósofo do início do século XX, Oswald Spengler, usa a palavra alemã “Kultur”, “cultura”, para o que muitos chamam de uma “civilização”. Spengler acredita que a coerência de uma civilização é baseada em um único símbolo primário cultural. As culturas experimentam ciclos de nascimento, vida, declínio e morte, muitas vezes suplantados por uma cultura nova poderosa, formada em torno de um novo símbolo cultural atraente. Spengler defende que a civilização é o início do declínio de uma cultura como, “… os estados mais exteriores e artificiais dos quais uma espécie de humanidade desenvolvida é capaz.”

Como encaixar nesses estudos de civilizações e do ser humano o Brasil e Cuba, aproveitando o momento de crise que atravessa o Brasil e o fim de vida de um ditador sanguinário que atrasou em cinquenta anos a vida dos cubanos.

Pode-se afirmar que existe em Cuba uma civilização ou apenas um aglomerado de indivíduos comandados e obedientes a um ditador esperto? E antes de Fidel, Cuba podia ser chamada de civilização como explica Norbert Elias e Oswald Spengler? Cuba era habitada principalmente por povos ameríndios conhecidos como taínos, também chamados de aruaques pelos espanhóis, e guanajatabeis e ciboneys antes da chegada dos espanhóis. Os antepassados desses nativos migraram séculos antes da parte continental das Américas do Sul, Central e do Norte. Os nativos taínos chamavam a ilha de Caobana. Os povos taínos eram agricultores e caçadores, ao passo que os ciboneis eram pescadores e caçadores e os guanatabeyes eram coletores. Cuba foi colonizada pelos espanhóis que impuseram sua maneira de viver e sua cultura. Portanto, Cuba não teve um ciclo de cultura própria, absorveu uma cultura imposta pelos espanhóis onde se destaca o saque e um modelo de governo onde imperava a vontade de um Estado todo poderoso. Fidel se aproveitou do momento em que Cuba vivia sob uma administração corrupta e de uma cultura intervencionista para instalar o seu reinado. A civilização em Cuba, portanto, ainda está por nascer. Cuba é apenas um conglomerado de indivíduos sem vontade própria vivendo miseravelmente.

E o que dizer do Brasil? Temos uma civilização e uma cultura ou temos sido ao longo do tempo como Cuba apenas um conglomerado de indivíduos contaminados por uma cultura portuguesa onde prevalece a vontade de um Estado todo poderoso? O crescimento pífio do Brasil reflete a cultura que assimilou dos portugueses, onde o Estado todo-poderoso dominava e tudo fazia. O povo brasileiro, em consequência dessa herança cultural sofre de uma doença da renúncia a ideais elevados, e por isso, vive mergulhado na autocomplacência, de agradar através do Estado com dinheiro de quem explora a iniciativa privada. O governo, qualquer governo, nunca encarou e não encara neste momento os desafios de um desenvolvimento dinâmico com taxa elevada de crescimento. A iniciativa do governo se restringe ao discurso, porque está preso a um modelo que não permite o desenvolvimento econômico. Enquanto o resto do mundo se volta ao desafio de criação de riquezas, o Brasil com sua política ambientalista e distributivista intervencionista estatal e com viés anticapitalista impede a criação de riquezas. Vivenciamos uma economia de funcionários públicos que se acomoda a dependência do Estado.  

Países que adotaram o regime capitalista crescem porque seu povo trabalha muito e porque estudaram muito. O Brasil adotou um modelo econômico e político errado, o que explica porque o Brasil cresceu pouco, portanto, não merecia crescer. No Brasil se usa demagogicamente a pobreza como instrumento político eleitoreiro e meio para corrupção, ou seja, a pobreza é estimulada pelo Estado através de suas políticas demagógicas.

Os políticos e governantes não buscam o desenvolvimento e a criação de incentivos para a melhoria da produtividade, o aumento da produção e a geração de empregos, preferem optar pelo modelo que prioriza a distribuição e a proteção, enquanto nos Estados Unidos, o Estado dá ao cidadão instrumentos para sua atividade com destaque para a educação. Adquirindo a maioridade, cada um é responsável pelo seu destino, e vai trabalhar e produzir para a grandeza do Estado.

Infelizmente num simples artigo não é possível mostrar o quanto o Brasil está no caminho errado. Contudo, dado a realidade política, econômica e social que vivemos é possível afirmar que ainda não construímos uma civilização, somos apenas um conglomerado sem rumo, sem tradição, sem cultura. Não saímos da selvageria. Precisamos dar início ao processo cíclico de formação de uma civilização que justifique o sacrifício do brasileiro. Viver e trabalhar para manter no topo do poder esse bando de aproveitadores medíocres é cruel e estúpido.

Armando Soares – economista

e-mail: armandoteixeirasoares@gmail.com           

*Todo conteúdo da postagem é de responsabilidade de seu autor.

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