Como os EUA se livraram da bicheira

O professor Enrico Ortolani escreve sobre a erradicação da bicheira e sugere o mesmo no Brasil
Por Enrico Ortolani

Como foi dito no artigo anterior, a bicheira ataca os animais das áreas quentes das Américas. Corria o ano de 1933. Os Estados Unidos estavam chacoalhados com a recessão econômica que andava solta com a quebra da Bolsa de Nova York e pelas quadrilhas de gângsteres que saqueavam o país. Naquele ano, o verão foi insuportável, com altas temperaturas e umidade. Para piorar, a bicheira atacou pela primeira vez nos Estados da Flórida e outros confrontantes com o México e provocou enormes estragos econômicos. A luz amarela acendeu. Tinha-se que acabar com aquela praga a qualquer custo, desafiando os cientistas.

Tudo começou com o estudo detalhado do ciclo da mosca, para encontrar o elo fraco da corrente. O que parecia um pequeno detalhe sem importância tornou-se o essencial.  Observaram as relações sexuais das moscas e notaram algo inédito. Enquanto os machos eram promíscuos e copulavam até com cinco parceiras durante a curta vida, as fêmeas eram fiéis a um único consorte.

Aí estava a pista para a solução. Inicialmente, fizeram em laboratório que moscas depositassem suas larvas em alimentos à base de carne, dando origem a milhões de moscas. Após muitas tentativas, viram que quando as pupas (estágio anterior às moscas) eram tratadas com raios X, as moscas resultantes sobreviviam, mas ficavam estéreis. Em seguida, cruzaram os machos radiativos com fêmeas normais e viram que os ovos resultantes não vingavam. Assim, a ideia era inundar as áreas contaminadas com seres estéreis, em especial os machos, para erradicar a praga.

O teste para valer foi feito na pequena Ilha de Curaçao, no Caribe. Soltaram milhões de moscas estéreis no ambiente e seis meses depois constataram que a bicheira havia evaporado. A partir de 1955 começaram uma forte investida de soltura de moscas estéreis (75 milhões por semana) no local mais problemático norte-americano, o sul da Flórida. Foi feita ainda pesada campanha com os técnicos e pecuaristas para detectar e tratar as bicheiras, entre outras medidas de menor porte.

Aos poucos, até os anos 1970, a bicheira foi sumindo em vários Estados. A campanha, porém, não tinha sucesso nos Estados fronteiriços com o México, pois daí novas moscas migravam para os “States”,visto que elas podiam voar até 180 km numa geração. Os gringos não tiveram saída. Decidiram também estender a campanha de erradicação ao México e aos países da América Central. Em 2004, a bicheira desapareceu até o sul do Panamá, onde começa a Floresta Amazônica. Para evitar a entrada de novas moscas nessa área, são soltas até hoje 40 milhões de insetos estéreis por semana.

Em 1988, a Líbia, do então ditador Muammar Gaddafi, comprou ovinos do Uruguai, sendo que um deles estava com bicheira. A praga inexistente naquele país multiplicou-se rapidamente. O sinal amarelo acendeu. Itália, Espanha e outros países gritaram na hora, temendo também ser contaminados. Imaginem o cenário. O ditador Gaddafi naqueles tempos desafiava os norte-americanos, e a CIA tinha feito várias emboscadas para matá-lo. A “diplomacia” americana agiu rapidamente e foram trazidos do México, a custo de ouro, 40 milhões de insetos por semana e a praga foi erradicada da Líbia em um ano. Pois é, Caetano Veloso tinha razão em afirmar na melodia “Sampa” que “a força da grana ergue e destrói coisas belas”.

E nós no Brasil e em boa parte da América do Sul grandemente atingidos pela bicheira, temos chance de erradicá-la? Na teoria sim, mas na prática é que são outros quinhentos!

Em 2009, por 13 semanas, a custo de US$ 1 milhão, foram liberados 21 milhões de moscas estéreis por semana em pequena área (4.600 km2) da fronteira do Uruguai com o Brasil. Os resultados foram bons, pois 21% das fêmeas de moscas do local ficaram estéreis. Imaginando que essa área fosse uma ilha isolada a bicheira seria extinta em pelo menos dois anos.

Acontece que o Brasil e os outros países limítrofes com o problema não são ilhas e os territórios cobertos por florestas são vastíssimos. Aí as moscas conseguem sobreviver, atacando os animais silvestres. Outro fator complicador são os cães, bastante acometidos pelas bicheiras. Eles foram uma das razões por que essa praga não foi extinta na Jamaica, após campanha de cinco anos com uso de moscas estéreis. Lá, até 30% dos cães tinham bicheiras e muitas delas não foram tratadas, complicando o controle.

A simples liberação de bilhões de moscas estéreis não resolve o problema. Deve existir, entre outras medidas, o completo comprometimento dos fazendeiros na detecção e no tratamento dos animais. Não é o que acontece. Pelo menos em um terço das fazendas que atendi detectei animais atacados por bicheira. Demorou tempo para que a campanha de combate à febre aftosa aqui “pegasse no breu”. A da bicheira seria bem mais difícil.

Temos hoje dois centros de pesquisa, um na USP e outro na Bahia, preparados para produzir moscas estéreis em massa. Precisaríamos de no mínimo mais oito centros em diferentes pontos do Brasil e demais países. Estimo que o custo para erradicar a praga seria algo como US$ 20 bilhões, em 40 anos. Além do Ministério da Agricultura, cada fazendeiro, frigorífico, curtumes e toda a cadeia produtiva deveria entrar nessa complexa campanha. Você toparia? Manifeste-se dando sua opinião à DBO.

FONTE:PortalDBO

Foi útil a notícia? Seja o primeiro a comentar.
O URL curto do presente artigo é: http://ruralbook.com.br/rb95RkT

Você pode gostar...

Seja o primeiro a comentar