Exportação de bovinos: conhecer para apoiar (ou não) – Por Fernando Furtado Velloso

A exportação de bovinos está completando 15 anos no Brasil, mas nos últimos 5 anos é que ganhou maior espaço na mídia e nas discussões entre pecuaristas, frigoríficos e defensores do bem estar animal.

Em 2017 o Brasil exportou aproximadamente 400 mil bovinos, sendo 85 mil do RS. Apesar de ainda representar uma fatia muito pequena do abate nacional, algo próximo de 1% apenas, a exportação de bovinos vivos vem sendo muito criticada pela indústria frigorífica no sul do Brasil e na carona por outros setores, como grupos contra a carne vermelha, etc.

Como todo assunto com grandes interesses econômicos envolvidos e radicalismos nas opiniões contrárias surgem muitas informações ou visões distorcidas. O propósito deste texto é trazer dados que podem melhorar a compreensão sobre a atividade e o seu impacto na pecuária e nos rebanhos.

Fonte: ABREAV e Porto do Rio Grande (RS)

Porque bovinos são exportados?

Considerando o valor final do kilograma do produto, seguramente, é mais econômico importar carne do que animais vivos, porém esta atividade existe por motivos religiosos, culturais e econômicos também. Em torno de 5 milhões de animais trocam de países anualmente para abate ou reprodução e o Brasil tem representado 10% ou menos desta movimentação.

Nos países árabes, o costume é o consumo de carne fresca e também de abates locais mediante a tradição halal. A importação de animais atende essas exigências culturais nestes países que tem consumo de carne muito superior à dimensão de seus rebanhos bovinos.

A grande maioria das exportações para os países árabes são para engorda e abate. No caso da China e Rússia as importações de animais destinados à reprodução estão crescendo, pois estes países estão ampliando seus rebanhos de corte e leite.

Exportação de bovinos e o impacto no tamanho dos rebanhos

A redução ou desestruturação dos rebanhos bovinos dos países exportadores é uma das situações indicada como negativa, pois se retira uma parcela adicional ao % normalmente abatido. O histórico de locais que exportam bovinos por vários anos mostra que esta situação não ocorre e até o contrário pode ocorrer, ou seja, o crescimento do efetivo bovino.

A Austrália é um dos mais antigos exportadores de bovinos, vendendo anualmente cerca de 1 milhão de animais, e mantém estável seu rebanho bovino em cerca de 25 milhões de animais.

O Pará é o estado que mais exportou animais no Brasil, tendo superado 90% das exportações nacionais em alguns anos. O rebanho bovino paraense subiu de 15,3 milhões de bovinos em 2007 para 20,5 milhões em 2017, com crescimento contínuo a cada ano. Apesar de ter exportado mais de 4 milhões de animais neste período, o estado ainda ampliou seu rebanho em 5 milhões de animais.

É fácil perceber que a exportação no Pará gerou grande demanda e valor para os animais e consequente incentivo à produção e ao aumento do rebanho dos pecuaristas.

Exportação de bovinos e o impacto em produção e exportação de carne

A exportação de bovinos é rotulada como exportadora de empregos, divisas e até é responsabilizada pela ociosidade dos frigoríficos nacionais. A Austrália é o maior exportador naval de bovinos e também está entre os maiores exportadores mundiais de carne. Juntamente com os EUA está posicionada como exportador de carne de alta qualidade, atingindo os maiores valores médios por tonelada de carne. Observa-se que a exportação de animais não é característica de países subdesenvolvidos.

Gráfico: Evolução da Exportação de Bovinos no Uruguai (Fonte: El Observador / MGAP)

O Uruguai alcançou em 2017 o maior número de animais exportados de sua história, superando 300 mil bovinos. No mesmo ano, o país cresceu 3,6% em exportação de carne, somando 442 mil toneladas, maior volume desde 2006. Lembre que o Uruguai tem porte de rebanho similar ao do RS e exportou quase 4 vezes mais animais que este estado em 2017.

Gráfico: Evolução da Exportação de Carne no Uruguai (Fonte: Blasina y Asociados / INAC)

A afirmativa de que a exportação de bovinos é danosa à cadeia da carne não se sustenta com a observação do histórico de países que operam fortemente nesta atividade.

Mudança do eixo Norte para o Sul

Nos últimos anos, a Venezuela perdeu o posto de maior cliente brasileiro de exportação de animais para a Turquia. Esta mudança alterou também o eixo de exportação, reduzindo gradualmente o domínio do Pará neste mercado e dando mais importância aos estados do Sul e Sudeste, pois a Turquia tem preferência por animais Europeus ou Cruza Europeus. Desta forma, o RS cresceu grandemente suas exportações e até SC e SP ingressaram como exportadores de animais.

Fonte: Porto do Rio Grande (RS)

A exportação de bovinos vem sendo bastante criticada no sul do país, especialmente pela indústria frigorífica. A maior parte dos argumentos traz uma visão bastante exagerada de desmonte da pecuária, inviabilização das indústrias, exportação de matéria prima e empregos, e de oportunismo dos pecuaristas em uma atividade que não terá continuidade. Os dados simples apresentados aqui demonstram que a atividade não canibaliza a produção e exportação de carne, pois a elevação na demanda por animais gera confiança, investimentos e ampliação da escala dos pecuaristas.

O tema tem sido discutido de forma um tanto apaixonada e ainda persiste a lógica do “nós contra eles”. Repetindo o que já escrevi em outros artigos, acredito muito que a informação é transformadora. Vamos nos debruçar sobre os números para então acusar ou defender a exportação de bovinos.

Por Fernando Furtado Velloso, Assessoria Agropecuária FFVelloso & Dimas Rocha

Fonte: Beefpoint

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