Manejo de açaizais para gerar renda e conservar a biodiversidade no Marajó – Embrapa

Foto: Dulcivânia Freitas

Foto: Dulcivânia Freitas

Projeto Bem Diverso – A fartura de açaizeiros nas comunidades ribeirinhas do Afuá, município do arquipélago do Marajó, localizado no Pará e mais próximo do Amapá, é a inspiração para um projeto que concilia a melhoria de renda dos extrativistas e a conservação da biodiversidade da região. Por meio do Projeto Bem Diverso, homens e mulheres destas comunidades são os protagonistas de uma série de capacitações em manejo de açaizais nativos. A orientação técnica é realizada com o extrativista no ambiente onde ele vive e trabalha. Depois da Ilha do Meio, nesta semana é a vez da Ilha do Pará, também em Afuá, ser beneficiada com a capacitação de dois dias. Realizada em parceria com a Emater do Pará, a etapa desta semana segue o programa que consiste em apresentações sobre as florestas de várzeas e o açaizeiro, o novo código florestal e o manejo dos açaizais, a diversidade e a estrutura das florestas de várzea, os princípios e requisitos para o manejo da floresta de várzea, licenciamento ambiental e manejo sustentável de açaizal de várzea. Na fase prática acontecem as intervenções no açaizal, onde os participantes demarcam blocos, limpam, fazem inventário, analisam dados e ainda executam atividades de manutenção do açaizal.  

O Bem Diverso é uma parceria entre a Embrapa e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) com recursos do Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) e tem como objetivo a conservação da biodiversidade brasileira e a geração de renda para comunidades tradicionais e agricultores familiares. Atende seis Territórios da Cidadania. As principais ameaças à conservação da floresta, no Território da Cidadania Marajó, são o desmatamento para a produção de madeira serrada; a exploração excessiva de açaí; o uso do fogo na agricultura de subsistência; o manejo inadequado das florestas; e a criação de búfalos que compacta solos em estações chuvosas e destrói a vegetação nativa. Trata-se de um dos IDHs-médio mais baixos do Brasil, de 0,519. Neste território, o projeto irá trabalhar com prioridade o açaí e a andiroba. O pesquisador Silas Mochiutti, responsável pelo projeto no âmbito da Embrapa Amapá, observa que “ao mesmo tempo em que você enxerga muita riqueza natural nesta região, há um povo que não alcança bons índices de desenvolvimento humano”.  É justamente por conta desse paradoxo que foi elaborado o projeto. O assessor técnico da coordenação do Projeto Bem Diverso, Fernando Moretti, explicou que o foco do projeto são regiões situadas em municípios de baixo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) e também onde já exista unidade da Embrapa com ações de pesquisa e desenvolvimento. “O Território da Cidadania do Marajó foi escolhido porque já existe um trabalho das unidades da Embrapa Amapá e do Pará. Então a ideia é trabalharmos com a espécie prioritária o açaí, e o projeto é dividido em dois resultados. O primeiro é fortalecer o arcabouço de extrativismo de produtos florestais não-madeireiros, por meio de boas práticas e manejo, e também a questão do acesso ao mercado, ao crédito, as políticas públicas de aquisição de alimentos”, acrescentou Moretti, durante sua viagem à Ilha do Meio. Ele disse que o fato de integrantes da equipe coordenadora se deslocar ate à comunidade e conhecer in loco a realidade dos extrativistas é importante porque quando as demandas são encaminhadas, a equipe da gestão terá a exata noção de como é o funcionamento e a importância do trabalho desenvolvido na comunidade. “É a primeira vez que venho ao Marajó, uma experiência fantástica. É lindo ver a integração das pessoas, o interesse em participar, a boa vontade de todos sobre esse tema, a motivação das lideranças e das pessoas da comunidade”, destacou o assessor técnico, que embarcou em uma lancha de Macapá para a Ilha do Meio para a viagem de quase duas horas.         

O pesquisador Silas Mochiutti embarca junto e comenta que este projeto é uma oportunidade para somar com a experiência dos ribeirinhos e melhorar a renda deles, a partir de um modelo de exploração sustentável, mantendo a floresta e o açaizeiro. “A programação de quatro anos do projeto prevê inicialmente uma capacitação continuada de manejo de açaizais. Vamos trabalhar juntos o manejo e implementar uma unidade de aprendizado. Nessa unidade se troca conhecimento técnico e o conhecimento tradicional do ribeirinho.  Nossa expectativa é uma melhoria considerável no manejo do açaí, atendendo requisitos de sustentabilidade, mantendo a diversidade da floresta e produzindo açaí, mas também aprimorado os canais de comercialização e políticas públicas e melhorando a qualidade do preço pago aos produtores, e que os produtores tenham acesso a créditos”, detalhou Mochiutti. A expectativa é otimista devido a dois fatores: o manejo de açaizais de mínimo impacto em área de várzeas já é um conhecimento técnico consolidado e as comunidades locais tem experiência com o açaí. “Mais de metade da renda dos ribeirinhos vem do açaí, mas já sentimos a perda da biodiversidade da floresta causada pela falta de um manejo de mínimo impacto. Também precisamos aprimorar os equipamentos e utensílios para a colheita, debulha de frutos, acondicionamento e transporte”, acrescenta o pesquisador.

Liderança reconhecida na Ilha do Meio (Afuá), Francisco Nazaré de Almeida, demonstra grande satisfação em mobilizar seus vizinhos para dar início às capacitações em manejo de açaizais nativos. De cara, ele faz logo referência ao fato do Afuá ter mais fluxo de relações econômicas com o Amapá. “Aqui estamos em um município do Pará, mas quando vemos a distância é muito maior para chegar até Belém do que em Macapá”, compara. E cita que o ribeirinho da Ilha do Meio, por exemplo, apanha o açaí até 10 horas e por volta das 15h já está comercializando em Macapá. “Se fosse para o Pará, gastaria em torno de 36 horas para chegar em Belém.  Então essa proximidade com o Amapá favorece muito para a gente vender em Macapá”. É por isso que a cooperativa criada pelos extrativistas do Afuá está ligada à filial do Amapá de outra cooperativa sediada no Pará. “Aqui (no Afuá) temos uma época de grande safra de açaí que vai de maio a agosto, e depois outra safra de outubro até fevereiro. Isso acontece porque na mesma ilha temos localidades que produzem em épocas diferentes, coisas da natureza”. Ele lembra que atualmente há cerca de 500 famílias extrativistas de açaí na Ilha do Meio, sendo que em todo o município de Afuá esse número sobe 4mil e 433 famílias assentadas, todas de ribeirinhos agroextrativistas. A produção gerada por estas comunidades está em torno de 900 toneladas por dia de açaí do Afuá. “E muito grande a produção. Estamos otimistas porque vamos trabalhar com a Embrapa e a cooperativa, de forma que teremos a questão do melhoramento da produção, do manejo do açaizal, espaçamento, para que a gente possa produzir mais e melhor”, afirmou Francisco Nazaré. Presidente da Organização das Cooperativas do Brasil (OCB) no Amapá, Gilcemar Pureza, também acompanha de perto a programação de apresentação do projeto na comunidade Ilha do Meio. “Nosso papel é ser um parceiro. A OCB aqui representa as cooperativas do Amapá, e nesse caso como a Açaícoop é sediada no Pará tem filial em Macapá, estamos trazendo a cooperativa Bioaçaí e mais quatro que integram o projeto Consórcio de Produção de Alimentos para dar apoio na realização do evento como suporte logístico, material de trabalho, o que for necessário e não estiver contemplado no Projeto Bem Diverso”, explicou Pureza.

Projeto Bem Diverso

O Projeto Bem Diverso é liderado pela Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia (Cenargen), sediada em Brasília. Foi iniciado em 2015, com duração prevista de cinco anos. A atuação das equipes é voltada para dois eixos principais: desenvolvimento e promoção do uso de técnicas de manejo para extração e uso sustentável de produtos florestais não madeireiros e promoção de sistemas agroflorestais; e identificação dos gargalos financeiros e de mercado que comprometem o aumento da produção e da renda de comunidades agroextrativistas e agricultores familiares. O Território da Cidadania Marajó é formado por 16 municípios no Pará (incluindo alguns que são mais próximos de Macapá e por isso serão cobertos pela Embrapa Amapá), 10 milhões de hectares e cerca de 37 mil famílias de pequenos agricultores.

Números do projeto:
 – 3 Biomas

 – 6 territórios da cidadania

 – 12 Espécies Nativas

 – 13 Unidades da Embrapa

 – 8 Instituições Parceiras

 –  Investimento de R$ 33 milhões. 

 

Dulcivânia Freitas (DRT-PB 1.063/96)
Embrapa Amapá

Fonte: Embrapa

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