Reciclar coco está se tornando bom negócio

Nos últimos anos, o crescimento acentuado do consumo de água de coco e derivados vem trazendo um problema igualmente grandioso: o que fazer com os restos do fruto? Transferir essa responsabilidade para comerciantes ou consumidores já não coaduna com um negócio que se expande em todo o mundo e cujo principal trunfo é estar associado à saúde e à qualidade de vida.

0,,58348131,00Apenas no Ceará, estima-se que um milhão de cocos são colhidos todo dia. Desse total, metade é processada pelas indústrias de água, óleo e coco ralado. Do restante, metade é “exportada” para outros estados e cerca de 125 mil unidades são revendidas para consumo em lares, restaurantes e barracas de praias.

Somente o produtor Augusto Aragão, de Paraipaba, a 85 Km de Fortaleza, traz toda semana 10 mil cocos para revenda em Fortaleza. Mas ele é apenas um entre tantos fornecedores que atendem a demanda da capital cearense – quarta maior em população do Brasil um dos destinos turísticos mais procurados no país. Tanto consumo implica preocupação para a coleta de lixo.

Para cada meio litro de água de coco consumido, por exemplo, quase dois quilos de fibras (endocarpo e mesocarpo) têm como destino os lixões. Por isso têm prosperado iniciativas de reaproveitamento dos subprodutos do coco. Pelas qualidades térmicas e fungicidas, por exemplo, indústrias automotivas estão substituindo a espuma sintética nos assentos de carro por fibra da casca de coco. E o mesmo vale para a construção civil, arquitetura ou artesanato.

Contudo, as experiências têm se revelado mais promissoras no agronegócio – no qual a fibra ou o substrato do coco (a casca triturada até virar pó) tem aplicação crescente, seja como adubo; em “tubetes” para receber mudas (substituindo os sacos plásticos não-biodegradáveis); ou como alternativa para otimizar o consumo de água e reduzir a aplicação de inseticidas nas plantações.

No Ceará, essas experiências ganharam impulso a partir de 2009, quando a Embrapa Agroindústria Tropical resolveu estabelecer parcerias com produtores de tomate, pimentão e morango para aferir cientificamente as vantagens de “cultivos protegidos em substrato de coco” – uma técnica bastante difundida em alguns países da Europa, em especial na Espanha, França e Holanda.

De acordo com o pesquisador Fábio Miranda, da Embrapa, só na Espanha já existem mais de 800 hectares de cultivos hortícolas e de plantas ornamentais que utilizam esse sistema. “E há uma tendência de crescimento do consumo do substrato de coco, em virtude de ser um produto renovável, biodegradável e com excelentes características físicas e químicas em relação a outro materiais”.

Mas em relação aos europeus o Ceará apresenta vantagens consideráveis, por ser segundo produtor de coco do Brasil, com cerca de 47 mil hectares plantado – , além de sediar várias agroindústrias do ramo. “Temos quase 20 empresas que transformam os resíduos da agroindústria do coco (cascas), tornando o substrato um produto acessível e com preço bastante competitivo”, explica.

“Estamos bem posicionados num negócio que vem se expandindo todo o Brasil, ao ritmo de 10% ao ano”, observa Laerte Gurgel, proprietário da Empresa Cohibra, com unidades nos municípios de Amontada (Ceará) e Petrolina (Pernambuco) e que trabalha para, até 2015, alcançar a produção de 1,5 milhão de mudas/sementes de coco anualmente. “No que refere ao substrato, a capacidade instalada não está conseguindo atender nem 30% da demanda atual no país”.

Embora também processe fibras de coco, segundo ele, no momento o esforço principal na Cohibra é produzir material genético de alta qualidade para acompanhar o crescimento do mercado de água no país – que vem despertando grande interesse de multinacionais, como a norte-americana Pepsico. “Para se ter ideia, uma única empresa está investindo R$ 500 milhões reais na produção e beneficiamento de coco no Brasil”.

Conforme Gurgel, a água do coco representa atualmente apenas cinco por cento do mercado de bebidas não-alcoólicas no país e as grandes empresas estão trabalhando para duplicar essa produção nos próximos cinco anos. Tal crescimento, contudo, traz de carona o problema de como descartar ou reutilizar a casca do coco – que ,no caso do fruto verde, pode pesar até quatro vezes mais do que a parte líquida (a água).

Esse é o dilema do produtor José Mota, que cultiva oito hectares de coqueiras em Acaraú, distante 243 quilômetros de Fortaleza. “Antes eu queimava ou enterrava as cascas, mas percebi que demoravam muito para se decompor e terminavam atraindo moscas e doenças para meu coqueiral”, conta. “Atualmente estou com uma quantidade de cascas que enchem cinco ou seis caminhões e não sei direito o que fazer”.

Esse problema já não existe para Emerson Fernandes, da cidade de Belmonte, na Bahia. Ele investiu em máquinas para processar a casca do coco e produz mensalmente 25 toneladas de fibra e três metros cúbicos de substrato. “A meta é expandir a produção e investir em itens de maior valor agregado”, diz o empresário, que hoje negocia sua produção com grandes fazendas de plantio de eucaliptos, hortas e floriculturas na região.

Entre as novidades no processamento da casca de coco figuram substratos que já vêm com diferentes composições e adicionados de nutrientes em função do tipo de planta a ser cultivada. Também podem vir adicionados de fungos que combatem fitopatógenos (microrganismos que causam doença nas plantas), reduzindo consideravelmente a necessidade da utilização de defensivos agrícolas.

Outro uso crescente dos subprodutos do coco no país é a manta (uma espécie de tecido da fibra de coco), muito utilizada na contenção de “taludes” – aqueles aterros geralmente visto à margens de rodovias. Esse sistema ajuda a fixar sementes e mudas nas encostas e também vem sendo muito demandado na indústria de mineração, tendo entre os clientes empresas como a vale do Rio Doce e Petrobras, por exemplo.

“De uns cinco anos para cá, o mercado para subprodutos do coco vem crescendo de forma impressionante”, observa o empresário Hamilton Côrtes, da Exponature, que há três décadas trabalha com o processamento da fibra do coco e mantém unidades fabris em Igarassu (Pernambuco), Conde (Bahia), além de uma parceria com a cearense Cohibra. “Com a valorização do produtos naturais, estamos vivendo um bom momento”, conclui.
Aplicações variadas

Diz-se que o coqueiro fornece um fruto completo, pois dele se obtém água, leite e carne (a partir da sua parte sólida). A essas qualidades somam-se outras igualmente importantes, entre as quais a de “berçário” para o cultivo de mudas ou sementes ou suporte especial para o cultivo de hortaliças, pequenos frutos e flores.

A unidade de produção de flores do grupo Reijers no Ceará, no município de São Benedito, e que mantém 31 hectares de cultivo em estufas, comprovou a eficácia do substrato (pó) do coco em termos de redução do consumo de água, manutenção do padrão de umidade e temperatura nas suas plantações.

“Chegamos a comprar 15 toneladas de substrato, quando o nosso cultivo era de apenas 18 hectares em estufa. Depois decidimos diminuir o consumo porque o produto estava sendo adquirido de um fabricante do estado do Pará e essa logística estava ficando trabalhosa”, afirma Geraldo Patrício, gerente de infraestrutura da Reijers Ceará.

Outro produtor que atesta as qualidades do substrato do coco é Julião Soares, paulista de Barueri. Em 1992 ele adquiriu um sítio de 24 hectares na cidade cearense de Guaraciaba do Norte, na Serra da Ibiapaba – uma região que se destaca pela produção de flores, frutas e legumes na região Nordeste do Brasil.

Três anos depois ele começou a investir no cultivo de tomate e em 1999 começou a estruturar uma estrutura para produzir mudas para os produtores da região. Ele conta que antes usava húmus e minhoca ou esterco bovino, mas tais produtos variavam de “resultados excelentes a catástrofes”.

“Como a gente não tinha controle de onde o boi pastava e em que condições, podia vir um esterco muito bom ou repleto de doenças “, explica Soares, que mantém a partir de 1999 estabeleceu pareceria com a Embrapa para experimentar o sistema de cultivo protegido com substrato de coco – que hoje tem capacidade instalada para 1,5 milhão de mudas mês.

Na avaliação dele, esse sistema é relativamente caro para ser instalado e precisa de constante acompanhamento técnico, mas, ao final, é bastante vantajoso. “Com o tomate a a colheita que antes se resumia a 60 dias pode se prolongar por até 8 meses. Isso resulta em produtividade 30% maior e mais bonitos, maiores e uniformes, além de o uso de defensivos agrícolas”, relata.

Fonte: Globo Rural

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Rodrigo Fraoli – CEO Ruralbook / Designer / Especialista em MKT Digital para o Agronegócio.

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