Vacina contra aftosa pós IATF gera perdas – Portal DBO


Pesquisa mostra perda gestacional de 16,5% em vacas vacinadas 30 dias após a IATF contra 4% em grupo de fêmeas que receberam a dose contra aftosa 20 dias antes da inseminação. O problema está relacionado a processo inflamatório e não ao estresse da vacinação.

O que era uma suspeita agora está cientificamente comprovado. A vacinação contra aftosa, feita após a inseminação artificial, afeta a fertilidade de vacas de corte. Trabalho conduzido por oito pesquisadores na Fazenda Seriema, em Miranda, MS, e que ainda aguarda publicação oficial, concluiu que os animais vacinados no 30º dia após IATF (inseminação artificial em tempo fixo) tiveram perda gestacional 4,2 vezes maior em relação ao grupo vacinado 20 dias antes de passar pela inseminação.

7584[1]Os resultados impressionam pela diferença significativa entre as perdas dos dois grupos: no primeiro, chegou a 16,5% ante apenas 4% nas vacas vacinadas antes de serem submetidas ao protocolo. A pesquisa foi feita entre novembro de 2011 e janeiro de 2012 e apresentada no 7º Encontro Nacional de Diagnóstico Veterinário (Endivet 2014), em novembro do ano passado, em Cuiabá, MT. Naquele momento apenas estudiosos da área de patologia animal tiveram acesso ao resultado. Os autores aguardam resposta ao pedido de divulgação oficial em publicação internacional, que representará o sinal verde para tornar pública a íntegra do estudo.

A decisão pelo trabalho ocorreu enquanto os pesquisadores estudavam outras vacinas, na mesma fazenda. O índice de perda dentro do esperado era entre 4% e 5%. No entanto, os resultados apontavam para 15%. “Imaginamos logo que a perda poderia estar relacionada à aplicação da vacina contra a aftosa que, em 2011, foi obrigatória para todos os animais no Mato Grosso do Sul em novembro, por causa de focos de aftosa no Paraguai”, conta o veterinário Luiz Carlos Louzada Ferreira, um dos oito pesquisadores. O grupo fez imediatamente um levantamento sobre eventual literatura científica que tratasse dessa relação e nada foi encontrado.

Animados com a possibilidade de um trabalho inédito, os pesquisadores iniciaram a investigação, desta vez para testar a relação da vacina com as perdas. Foram testadas no total 604 vacas paridas, todas passando pelo protocolo de IATF. O lote nomeado como “controle” reuniu 291 animais, imunizados 20 dias antes da inseminação. Já o grupo “desafio” teve 313 fêmeas vacinadas no momento do primeiro diagnóstico de gestação (30 dias após a IATF). Nos dois grupos, o diagnóstico de gestação foi feito aos 30 e 90 dias após a inseminação por meio de ultrassonografia.

Na primeira avaliação, 62% das vacas do grupo controle e 56,2% do grupo desafio estavam prenhes. Sessenta dias depois, o segundo exame apontou para perdas gestacionais de 4% no lote vacinado 20 dias antes da inseminação. Já o grupo vacinado 30 dias após a IATF teve índice de 16,5% de perdas. “Todos os animais passaram por igual protocolo e grupo de inseminadores. Além disso, como integravam um mesmo rebanho, receberam condições nutricionais e de sanidade idênticas e detinham escore corporal médio de 2,5”, explica Ferreira.

Em trabalho posterior (não publicado e ainda sem autorização para divulgação), Ferreira diagnosticou de que forma a vacina contra a aftosa provoca maior perda. “Pensávamos que a causa de tudo seria o stress relacionado ao manejo e à aplicação, mas percebemos que está ligada ao processo inflamatório não infeccioso que ocorre naturalmente com a reação do organismo à vacina”, revela. Segundo ele, há uma descamação no útero e elevação na produção de prostaglandina.

“A maior quantidade desta substância reduz o nível de progesterona, responsável por segurar a gestação. Além disso, qualquer problema na parede do útero pode fazer com que o organismo entenda que se trata de um corpo estranho e provoque o aborto”, explica. Ferreira incluiu o trabalho como parte da sua dissertação de mestrado no Programa de Pós- Graduação em Ciência Animal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS).

Ele conduziu o estudo em conjunto com os pesquisadores Reinaldo F. Cooke, Rodrigo S. Marques (ambos da Universidade do Estado do Oregon, EUA), Henrique Jorge Fernandes (Universidade Estadual do Mato Grosso do Sul), Carlos Eurico Fernandes, Robson Stelato (Laboratório Zoetis), Gumercindo L. Franco e Ricardo Lemos (ambos da UFMS). A ultrassonografia para fazer diagnóstico de gestação é citada por ele como um exemplo de variável tecnológica fundamental para que se pudesse mensurar as perdas gestacionais com mais precisão. “Antes se fazia diagnóstico com a mão, identificando prenhez em estágio avançado. Muitas vacas já haviam perdido a primeira gestação, enprenhavam de novo e isso não era identificado. Hoje, com o ultrassom, temos acesso a informações que não se percebiam antes”, explica.

Ciente  da delicadeza do assunto, o pesquisador entende que, via de regra, nunca se percebeu interesse em mensurar perdas na fertilidade ligadas a uma vacina tão importante para a pecuária brasileira. “Temos de tomar muito cuidado, pois deve ficar claro que o mais importante é a imunização contra a aftosa. A doença é uma enorme barreira comercial. Evoluímos muito em seu controle e não podemos perder o que foi conquistado”, ressalta.

O que fazer?

A diferença de 12,4 pontos percentuais entre as perdas dos dois grupos é considerada como extremamente alta. O problema, diz, ganha relevância nos Estados nos quais o calendário de vacinação contra a aftosa determina
sua obrigatoriedade em novembro, coincidindo com o início dos meses de chuva, quando há maior fartura de alimento, condição necessária para o início da estação de monta. “No Mato Grosso do Sul o problema tende a ser menos grave, pois o calendário obriga à vacinação em novembro somente de animais abaixo de 24 meses e dos localizados na Zona de Alta Vigilância próximos às linhas de fronteira. Por outro lado, nos Estados onde a vacinação do rebanho total ocorre entre outubro e novembro, durante a estação de monta podem estar ocorrendo significativas perdas gestacionais”, avalia.

Conforme o calendário oficial de vacinação, estariam nesta situação Acre, Alagoas, Amazonas, Ceará, Espírito Santo, Maranhão, Mato Grosso, Pará, Paraíba, Paraná, Pernambuco, Piauí, Rio Grande do Norte, Rondônia, Roraima e São Paulo. Ferreira indica dois caminhos: “Dentro do possível, o produtor deve procurar vacinar pelo menos uma semana antes da estação de monta.

Caso seja inviável, a opção é mobilizar a categoria para solicitar alteração no calendário, de forma que a vacinação obrigatória seja fixada em data fora deste período”. Ao tomar conhecimento do resultado da pesquisa, o diretor de Planejamento da AFB (Agropecuária Fazenda Brasil, grupo com rebanho de 55.000 animais em ciclo completo, distribuídos em cinco fazendas no Vale do Araguaia, leste do MT), Rogério Fonseca Guimarães Peres, resolveu encaminhar, em março, solicitação à Federação da Agricultura e Pecuária do Mato Grosso (Famato) de inversão da campanha de vacinação contra aftosa do mês de novembro para maio. A sugestão é justamente passar para novembro a vacinação apenas de animais abaixo de 24 meses.

A reportagem completa está na edição de setembro da Revista DBO. 

Fonte: Portal DBO e Edição DBO 419

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Rodrigo Fraoli – CEO Ruralbook / Designer / Especialista em MKT Digital para o Agronegócio.

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