Afinidade com Trump não garante ganhos ao agro brasileiro

Segundo turno coloca política externa no centro do debate, mas especialistas alertam: proximidade ideológica não elimina tarifas nem assegura benefícios ao produtor brasileiro.

A relação comercial Brasil-EUA ganhou ainda mais peso no debate eleitoral brasileiro. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) disputam o segundo turno da eleição presidencial no próximo dia 25 de outubro. Nesse cenário, produtores e exportadores acompanham de perto como o próximo governo pretende negociar com os Estados Unidos de Donald Trump sem comprometer a estratégica relação brasileira com a China. O segundo turno foi confirmado oficialmente pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Para o agronegócio, a questão central não é apenas quem terá maior proximidade política com Washington, mas quais condições comerciais o Brasil conseguirá colocar sobre a mesa.

Especialistas ouvidos pelo Canal Rural avaliam que uma eventual afinidade política com Trump pode facilitar a comunicação diplomática. No entanto, isso não significa automaticamente redução de tarifas, abertura de mercado ou vantagens ao exportador brasileiro. Segundo a análise, a política comercial norte-americana continua fortemente orientada pelos interesses estratégicos dos próprios Estados Unidos.

Exportações aos EUA recuam 6,5% em 2026

Os números ajudam a dimensionar o desafio.

Dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostram que o Brasil exportou US$ 27,46 bilhões para os Estados Unidos entre janeiro e setembro de 2026, uma queda de 6,5%frente ao mesmo período de 2025. As importações brasileiras de produtos norte-americanos também recuaram 7,1%, para US$ 31,79 bilhões. Como resultado, o Brasil acumulou déficit bilateral de aproximadamente US$ 4,33 bilhões.

No entanto, o impacto foi particularmente forte no campo. Levantamento do Monitor do Comércio Brasil–EUA, elaborado pela Amcham Brasil com base no ComexStat, aponta que as exportações da agropecuária brasileira para os Estados Unidos despencaram 17,8% entre janeiro e setembro. Para os demais destinos, ao contrário, avançaram 8,9%.

O desempenho deixa um alerta claro ao setor produtivo: afinidade diplomática não substitui competitividade, acesso a mercados e negociação comercial efetiva.

Entre os produtos afetados pelas sobretaxas aparecem segmentos diretamente relacionados ao agro e à economia rural, como madeira, sebo bovino e fumo. Além disso, parte das mercadorias brasileiras enfrenta tarifas adicionais que reduziram sua competitividade no mercado norte-americano.

Setembro melhora, mas não reverte perdas acumuladas

Apesar do cenário negativo no acumulado do ano, setembro trouxe uma reação importante. As exportações brasileiras para os Estados Unidos cresceram 31,9% sobre setembro de 2025 e alcançaram US$ 3,52 bilhões.

O resultado, entretanto, ainda não foi suficiente para reverter a perda registrada nos nove primeiros meses de 2026.

Além disso, os próprios números mostram como o Brasil precisa avaliar seus parceiros comerciais de maneira pragmática. No mesmo período de janeiro a setembro, as exportações brasileiras para a China chegaram a US$ 84,68 bilhões, alta de aproximadamente 12%. O mercado chinês recebeu, portanto, mais de três vezes o valor exportado aos Estados Unidos.

Para o agro brasileiro, criar uma escolha política entre China e Estados Unidos seria uma estratégia de alto risco. Os dois mercados possuem importância econômica distinta e precisam ser tratados de acordo com os interesses do produtor nacional.

Soja mostra tamanho do desafio geopolítico

A soja representa um dos exemplos mais sensíveis dessa disputa.

Brasil e Estados Unidos estão entre os principais concorrentes no mercado internacional da oleaginosa, enquanto a China permanece como destino fundamental para o produto brasileiro.

Segundo o Canal Rural, uma proposta apresentada pelos Estados Unidos em 2025 previa que os dois países trabalhassem pela chamada “estabilização” do comércio mundial de soja. O documento fazia parte das discussões envolvendo o tarifaço norte-americano, mas não resultou em acordo entre os governos.

Especialistas divergem sobre o alcance dessa ideia. Uma leitura considera possível uma cooperação voltada à troca de informações, pesquisa e segurança alimentar. Outra levanta preocupação de que uma eventual reorganização dos fluxos internacionais possa limitar espaço para as vendas brasileiras.

Qualquer negociação capaz de reduzir artificialmente a participação do Brasil no mercado mundial de soja precisa ser analisada com extrema cautela, sobretudo pelos impactos potenciais sobre preços, exportações e entrada de dólares.

O economista Caio Augusto Rodrigues, ouvido pelo Canal Rural, observou que eventual redução das vendas poderia pressionar negativamente o câmbio justamente pela menor entrada de moeda estrangeira no país. Ainda assim, trata-se de um cenário hipotético, pois nenhuma limitação às exportações brasileiras foi acordada.

O que realmente interessa ao produtor rural?

Do ponto de vista do agronegócio, o próximo presidente encontrará uma equação delicada.

De um lado está a China, maior destino das exportações brasileiras e compradora fundamental de commodities agrícolas. De outro estão os Estados Unidos, grande potência econômica, importante parceiro comercial e também concorrente direto do Brasil em produtos como soja, milho e carnes.

Assim sendo, uma política externa que preserve mercados, derrube barreiras e amplie oportunidades tende a ser mais relevante ao produtor do que alinhamentos puramente ideológicos.

O agro brasileiro precisa de diplomacia comercial pragmática: negociar com Washington sem abandonar Pequim, proteger suas vantagens competitivas e evitar concessões que transfiram mercado aos concorrentes.

A experiência recente reforça esse ponto. Mesmo governos politicamente próximos podem entrar em conflito quando interesses comerciais nacionais estão em jogo. Leandro Consentino, professor do Insper, já havia destacado que políticas protecionistas norte-americanas poderiam dificultar a entrada de produtos brasileiros, embora também pudessem abrir oportunidades em terceiros mercados.

Agro precisa estar no centro das negociações

Em suma, o resultado das urnas pode mudar o tom diplomático brasileiro, mas dificilmente mudará uma realidade básica das relações internacionais: Estados Unidos e China defenderão primeiro seus próprios produtores, suas empresas e seus interesses estratégicos.

O Brasil precisa fazer o mesmo.

Para o setor produtivo, isso significa defender abertura comercial, previsibilidade, segurança jurídica, redução de tarifas e manutenção da liberdade para vender aos mercados que ofereçam melhores condições.

Mais importante que escolher aliados ideológicos é garantir que nenhuma negociação internacional coloque o produtor brasileiro em desvantagem diante de seus concorrentes.

Nesse cenário de mercados cada vez mais ligados à geopolítica, planejamento e informação se tornam ferramentas indispensáveis dentro e fora da porteira. Na plataforma Fazenda Planejada, produtores, gestores e profissionais do agro encontram cursos, e-books e livros voltados à gestão, estratégia e desenvolvimento rural. Acesse, conheça os materiais e fortaleça as decisões da sua propriedade.

Fontes:
Canal Rural  / Tribunal Superior Eleitoral / Agência Brasil 

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

Jornalismo Ruralbook – A informação que vem do campo.

Conteúdos publicados no portal Ruralbook, com autoria do jornalismo Ruralbook e seus colunistas, são protegidos por direitos autorais. Caso sejam utilizados em outros meios, é obrigatório citar o canal Ruralbook como autor e incluir um link de redirecionamento para o portal. Essa medida visa garantir o reconhecimento da fonte e a disseminação de informações de qualidade no setor agro.

Cursos & E-books

Quer receber nossas matérias, reportagens e conteúdos em primeira mão?

Faça parte de nossos grupos – Central Ruralbook

Sugestões de pauta envie para:

Whatsapp: (94) 99220-9471 – Email: redacao@ruralbook.com