Nova revisão coloca soja, milho e trigo em trajetória de alta, enquanto clima, guerras, energia e demanda por biocombustíveis aumentam a pressão sobre o mercado mundial.
O Banco Mundial elevou as projeções para os preços dos grãos até 2027, colocando soja, milho e trigo entre as commodities que podem permanecer valorizadas diante de uma combinação de oferta mais apertada, riscos climáticos, problemas logísticos e demanda crescente. O novo cenário aparece no Commodity Markets Outlook de outubro de 2026, divulgado em 28 de outubro.
A revisão chama atenção porque ocorre em um momento no qual os produtores brasileiros começam a avançar sobre a safra 2026/27. Além disso, conflitos internacionais, custos de energia, dificuldades no transporte de grãos pelo Mar Negro e um El Niño considerado muito forte pelo relatório aumentam as incertezas sobre a disponibilidade mundial de alimentos.
O Banco Mundial estima que os preços internacionais das commodities alimentícias avancem aproximadamente 10% em 2026 e outros 7% em 2027, acumulando alta próxima de 18% nos dois anos.
No entanto, o comportamento será diferente para cada cultura.
Soja pode chegar a US$ 515 por tonelada em 2027
Na soja, a nova projeção do Banco Mundial colocou o preço médio de 2026 em US$ 489 por tonelada, ante US$ 441 previstos anteriormente. Isso representa uma revisão para cima de aproximadamente 10,9%.
Para 2027, a expectativa sobe novamente, chegando a US$ 515 por tonelada.
O movimento ocorre mesmo diante da possibilidade de uma produção mundial recorde. Segundo o relatório, a produção global de soja pode crescer cerca de 2% na temporada 2026/27, marcando o sexto recorde consecutivo.
A diferença está na demanda.
O consumo mundial tende a crescer mais rapidamente que a produção, reduzindo a relação entre estoques e consumo pelo segundo ano consecutivo.
Um dos principais motores dessa procura vem dos biocombustíveis. Nos Estados Unidos, o uso de óleo de soja destinado à produção energética deverá superar, pela primeira vez, metade do consumo doméstico do derivado.
Como resultado, o Banco Mundial espera alta de aproximadamente 18% para a soja em 2026 e outros 5% em 2027. Para o óleo de soja, a pressão é ainda maior: o relatório projeta avanço de 39% neste ano e mais 11% no próximo.
Trigo lidera pressão e pode subir ainda mais
Entre os grandes grãos analisados, o trigo apresenta uma das situações mais delicadas.
A previsão de preço médio do trigo norte-americano HRW para 2026 passou de US$ 253 para US$ 311 por tonelada, uma revisão de aproximadamente 22,9%. Em 2027, o valor projetado alcança US$ 353 por tonelada.
Nesse caso, a pressão vem principalmente da oferta.
O Banco Mundial projeta uma redução de 3% na produção mundial de trigo em 2026/27, enquanto as exportações globais podem cair aproximadamente 7%.
Nos Estados Unidos, a instituição projeta queda de 23% na colheita, que poderia alcançar o menor volume em 55 anos. Argentina e Austrália também enfrentam perspectivas de redução, enquanto União Europeia e Canadá aparecem entre os mercados afetados.
Ao mesmo tempo, ataques e dificuldades logísticas envolvendo as rotas do Mar Negro pressionam os embarques de Rússia e Ucrânia.
Por causa desse conjunto de fatores, o Banco Mundial prevê que os preços do trigo aumentem aproximadamente 28% em 2026 e mais 14% em 2027, antes de uma possível acomodação em 2028.
Milho também entra no radar de valorização
O milho segue trajetória semelhante, embora com intensidade menor que o trigo.
O preço médio projetado para 2026 foi elevado para US$ 223 por tonelada, diante de uma estimativa anterior de US$ 211. Para 2027, o Banco Mundial projeta US$ 235 por tonelada.
O relatório trabalha com uma possível retração de aproximadamente 3% da produção mundial de milho na temporada 2026/27.
Nesse cenário, os preços do cereal poderiam avançar cerca de 10% em 2026 e outros 5% em 2027.
Contudo, existe um aspecto importante para o produtor brasileiro: as projeções globais não significam necessariamente escassez doméstica.
Brasil pode colher mais mesmo com pressão global
Enquanto o Banco Mundial enxerga restrições na oferta internacional, a Conab trabalha com crescimento da produção brasileira.
No primeiro levantamento da safra 2026/27, divulgado em 15 de outubro, a estatal estimou uma produção nacional de 367,1 milhões de toneladas de grãos, alta de 1,4% sobre a temporada anterior.
Para a soja, a projeção chega a 181,6 milhões de toneladas, enquanto o milho pode alcançar aproximadamente 148 milhões de toneladas.
Além disso, a demanda doméstica brasileira permanece aquecida. No milho, a expansão da produção de etanol de cereais e o consumo pelas cadeias de aves e suínos ganham peso. Na soja, biodiesel, processamento e exportações ajudam a sustentar o consumo.
Isso significa que o Brasil pode entrar em um período de preços internacionais mais firmes justamente enquanto amplia sua capacidade de produção.
Para o produtor, essa combinação pode representar oportunidade comercial, sobretudo se a demanda externa permanecer forte.
Mas preço maior não é sinônimo de lucro maior
A valorização das commodities, entretanto, precisa ser analisada junto aos custos.
O próprio Banco Mundial estima aumento médio de aproximadamente 14% nos fertilizantes em 2026, embora espere uma acomodação em 2027. Energia também pesa: o relatório projeta alta de 32% em 2026 nos preços desse grupo.
Portanto, um cenário de soja, milho e trigo valorizados pode vir acompanhado por diesel, frete, fertilizantes e outros componentes de produção mais caros.
Ao mesmo tempo, câmbio, prêmio nos portos, basis regional, produtividade e momento da comercialização continuarão determinando quanto da valorização internacional realmente chega ao caixa da fazenda.
Para o produtor brasileiro, a grande questão não será somente “quanto o grão vai valer”, mas quanto dessa valorização permanecerá como margem depois dos custos.
Clima e geopolítica podem mudar as projeções
Outro ponto decisivo está nos riscos.
As estimativas do Banco Mundial pressupõem que não haverá uma intensificação expressiva dos conflitos atualmente responsáveis por restrições no comércio mundial. Portanto, as próprias projeções carregam elevado grau de incerteza.
Caso energia, transporte marítimo, conflitos no Mar Negro e um El Niño forte ocorram simultaneamente em intensidade maior que o esperado, os alimentos poderiam ficar ainda mais caros.
Em um cenário adverso elaborado pelo Banco Mundial, os preços das commodities alimentícias poderiam ficar cerca de 12% acima das projeções básicas e superar os níveis registrados em 2022.
A FAO já identificou sinais dessa pressão. Seu índice global de preços dos alimentos atingiu 136 pontos em setembro de 2026, alta de 1,5% frente a agosto e de 5,8% em doze meses, com preocupações climáticas e interrupções logísticas entre os fatores observados.
O que o produtor deve observar até 2027
Para o agronegócio brasileiro, o relatório abre uma janela que merece atenção.
Soja a US$ 515 por tonelada, milho a US$ 235 e trigo a US$ 353 em 2027 são referências internacionais projetadas pelo Banco Mundial — não preços garantidos ao produtor brasileiro.
Ainda assim, o direcionamento é relevante.
Uma demanda mundial sustentada por alimentação, rações e biocombustíveis, somada às dificuldades enfrentadas por grandes produtores internacionais, pode melhorar a sustentação das cotações. Por outro lado, uma grande safra brasileira pode elevar a oferta doméstica e limitar parte desse movimento em determinadas regiões.
Assim sendo, comercialização escalonada, acompanhamento do câmbio, proteção de margens e controle de custos devem ganhar ainda mais importância.
O cenário desenhado pelo Banco Mundial coloca o mercado agrícola diante de uma mudança importante: depois de anos marcados por grandes oscilações, soja, milho e trigo podem entrar em 2027 sustentados por uma combinação incomum de demanda forte, oferta vulnerável, energia cara e riscos geopolíticos.
Para o Brasil, a conjuntura pode favorecer um dos maiores produtores e exportadores agrícolas do mundo. Entretanto, capturar essa oportunidade dependerá de produtividade, gestão, custos e estratégia comercial.
Preço internacional mais alto pode ajudar o produtor, mas será a margem — e não apenas a cotação — que determinará quem realmente ganhará com o novo ciclo das commodities.
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Fontes:
Banco Mundial / Notícias Agrícolas / Conab / FAO
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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