El Niño ameaça safra 2026/27 e coloca produtores em alerta

Fenômeno ganha intensidade justamente às vésperas do plantio e pode desafiar soja, milho e pecuária. No Centro-Norte, irregularidade das chuvas será um dos principais pontos de atenção.

O produtor brasileiro se prepara para uma nova temporada de soja, milho e outras culturas de verão, mas a safra 2026/27 terá o El Niño como uma das principais variáveis dentro do planejamento agrícola.

O fenômeno já foi confirmado em junho e deve ganhar força justamente durante a primavera e o verão, período que coincide com plantio, emergência, desenvolvimento vegetativo, florescimento e enchimento de grãos das principais culturas brasileiras.

Segundo o Painel El Niño 2026-2027, elaborado por órgãos como INMET, INPE, Cemaden e ANA, os modelos apontam probabilidade superior a 90% de permanência do fenômeno até pelo menos o início de 2027. Além disso, existe alta probabilidade de um evento muito forte entre a primavera e o verão de 2026.

O INMET também informou anteriormente que modelos chegaram a indicar 63% de chance de um El Niño muito forte no trimestre novembro-dezembro-janeiro, embora previsões de intensidade possam mudar conforme o fenômeno evolui.

Isso coloca o período mais importante da safra brasileira praticamente dentro da janela de maior influência prevista para o El Niño.

Para o produtor, portanto, o alerta não significa necessariamente quebra de safra. Significa que 2026/27 poderá exigir muito mais precisão para escolher quando plantar, qual cultivar utilizar e quanto risco assumir.

Centro-Norte: início das chuvas será decisivo para a soja

No Centro-Norte brasileiro, uma das maiores preocupações está relacionada à distribuição das chuvas.

O prognóstico oficial para julho, agosto e setembro aponta maior probabilidade de precipitações abaixo da média em boa parte do Centro-Norte, além de temperaturas acima da normal climatológica em grande parte do País.

Estados de grande importância agrícola, entre eles Mato Grosso, Pará, Tocantins, Maranhão e áreas de Goiás, precisam acompanhar atentamente a transição entre o período seco e o estabelecimento das chuvas da primavera.

Para a soja, talvez a pergunta mais importante da safra 2026/27 não seja quando vai chover, mas quando a chuva realmente vai se regularizar.

Uma precipitação isolada pode molhar superficialmente o solo e estimular o produtor a iniciar a semeadura. No entanto, caso seja seguida por vários dias de calor intenso e ausência de novas chuvas, sementes e plântulas ficam expostas a condições adversas.

Como resultado, podem ocorrer problemas de emergência, redução do estande e necessidade de replantio.

Por isso, plantar na primeira chuva pode se transformar em uma aposta perigosa em uma temporada marcada pelo El Niño.

Atraso da soja pode atingir diretamente o milho safrinha

O impacto potencial não termina na soja.

Grande parte da competitividade agrícola brasileira está baseada no aproveitamento da mesma área para duas culturas dentro do mesmo ano agrícola. Assim, o calendário da soja influencia diretamente o milho segunda safra.

Caso a regularização das chuvas atrase o plantio da oleaginosa, sua colheita também poderá avançar no calendário.

Consequentemente, o milho segunda safra pode ser empurrado para uma janela climática de maior risco.

Esse efeito é particularmente importante em Mato Grosso e nas áreas de expansão agrícola do Centro-Norte.

Cada semana perdida na implantação da soja pode aumentar a pressão sobre a janela ideal do milho que vem depois.

Diante disso, o planejamento da safra precisa considerar o sistema produtivo completo, e não somente a primeira cultura.

Temperaturas elevadas aumentam a perda de água

Outro fator merece atenção.

O Painel El Niño aponta maior probabilidade de temperaturas acima da normal climatológica em grande parte do Brasil, aumentando inclusive o potencial para episódios de ondas de calor na faixa central do País.

Temperaturas elevadas aumentam a evapotranspiração e aceleram a perda de água disponível no solo.

Dessa forma, uma lavoura pode sofrer estresse hídrico mais rapidamente quando calor intenso e períodos sem precipitação acontecem simultaneamente.

Na safra 2026/27, quantidade de chuva será importante, mas sua distribuição poderá ser ainda mais decisiva.

Dois municípios podem terminar determinado mês com acumulados semelhantes e, ainda assim, apresentar resultados completamente diferentes caso um receba chuvas bem distribuídas e outro enfrente longos intervalos secos.

No Sul, o risco muda: água demais também preocupa

Se no Centro-Norte a irregularidade e a redução das precipitações entram no radar, no Sul o problema poderá ser inverso.

Historicamente, o El Niño favorece precipitações maiores na região. O cenário oficial atual também aponta maior probabilidade de chuva acima da média em grande parte do Sul.

Isso pode favorecer a disponibilidade hídrica das lavouras, mas o excesso também traz problemas.

Solo encharcado, erosão, dificuldade de entrada de máquinas, atraso de plantio, menor janela para pulverizações e maior pressão de doenças fúngicas estão entre os riscos.

Portanto, o El Niño pode criar dois desafios completamente diferentes dentro da mesma safra brasileira: falta ou irregularidade de água no Centro-Norte e excesso de precipitação no Sul.

El Niño pode mexer também com o custo da safra

O risco climático rapidamente se transforma em risco financeiro.

Replantar uma área significa utilizar novamente sementes, combustível, máquinas, mão de obra e, dependendo da situação, outros insumos.

Além disso, perdas de produtividade acontecem justamente em uma safra na qual o produtor precisa pagar custeio, arrendamentos, financiamentos, insumos e demais compromissos assumidos antes da colheita.

Por causa disso, seguro rural, Proagro e outros instrumentos de gestão de risco merecem ser analisados antes do plantio, e não somente depois que o clima provocar prejuízos.

Da mesma forma, planejamento financeiro e manutenção de margem para imprevistos ganham relevância.

Pecuária também precisa entrar no planejamento

O pecuarista não está fora desse cenário.

O Painel El Niño alerta que a combinação entre temperaturas acima da média e chuvas abaixo da normalidade aumenta o potencial de queimadas em áreas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste.

Além disso, uma estação seca mais severa ou prolongada pode pressionar pastagens, reservatórios e disponibilidade de água para os animais.

Esperar o pasto acabar para começar a planejar suplementação é exatamente o risco que deve ser evitado em 2026.

O produtor pode revisar antecipadamente estoque de silagem e volumoso, disponibilidade de água, capacidade dos bebedouros, lotação dos pastos, áreas de reserva e estratégias de suplementação.

Da mesma forma, propriedades devem revisar aceiros, equipamentos, reservatórios e planos de combate ao fogo.

Como preparar a propriedade para a safra 2026/27

A preparação começa pelo acompanhamento climático frequente.

Previsões sazonais não conseguem determinar hoje exatamente quanto choverá em uma propriedade durante novembro ou dezembro. Elas indicam tendências e probabilidades.

Por isso, o produtor não deve tomar decisões milionárias baseado apenas na existência do El Niño, mas também não pode ignorar um sinal climático dessa magnitude.

Para reduzir os riscos, algumas medidas ganham importância:

  • acompanhar semanalmente as previsões do INMET, INPE e serviços meteorológicos regionais;
  • verificar a umidade no perfil do solo antes da semeadura;
  • evitar decisões de plantio baseadas exclusivamente em chuvas isoladas;
  • escalonar o plantio quando tecnicamente possível;
  • discutir cultivares e ciclos com assistência agronômica;
  • revisar o planejamento da soja considerando também a janela do milho;
  • preservar cobertura e palhada para reduzir perdas de umidade;
  • revisar estruturas de irrigação e armazenamento de água;
  • contratar ou revisar seguro rural antes da implantação;
  • manter margem financeira para eventuais replantios;
  • planejar antecipadamente alimentação e água para o rebanho;
  • reforçar a prevenção contra incêndios.

Safra pode ser decidida antes mesmo da colheita

O cenário climático não significa que o Brasil terá necessariamente uma safra ruim em 2026/27. O El Niño influencia o clima, porém outros fatores atmosféricos e oceânicos também interferem na distribuição regional das chuvas.

Ainda assim, os sinais atuais justificam atenção.

Especialistas do governo federal indicaram em julho que as projeções apontavam continuidade da intensificação do El Niño, com alta probabilidade de intensidade forte ou muito forte entre agosto e dezembro.

Portanto, o período crítico de fortalecimento do fenômeno coincide justamente com a implantação e o desenvolvimento inicial de milhões de hectares da safra brasileira.

Para o Centro-Norte, isso torna o monitoramento da regularização das chuvas particularmente importante.

No Sul, por outro lado, drenagem, excesso de umidade, doenças e possibilidade de eventos extremos devem permanecer no radar.

A safra 2026/27 poderá premiar menos quem simplesmente planta primeiro e mais quem conseguir plantar no momento agronomicamente correto.

Em suma, o produtor brasileiro não controla o El Niño. No entanto, pode controlar boa parte das decisões tomadas antes, durante e depois de cada evento climático.

Planejamento, informação meteorológica, assistência técnica, proteção financeira e rapidez para adaptar o manejo serão ferramentas fundamentais.

Em uma safra que começa cercada de incertezas climáticas, informação também passa a ser insumo — e pode valer tanto quanto aquilo que entra no plantio.

Para melhorar ainda mais o planejamento da propriedade, conheça também a Fazenda Planejada, plataforma de cursos, e-books e livros voltados à gestão, produção e desenvolvimento dos negócios rurais.

Fontes
INMET / INPE 

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

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