Estudo aponta que um El Niño forte pode retirar 17,6 milhões de toneladas da produção brasileira, com Mato Grosso e Goiás no centro do risco climático.
O El Niño na soja tornou-se um dos principais pontos de atenção para a safra brasileira 2026/27. Um estudo apresentado pela Serasa Experian nesta terça-feira, 27 de outubro, calcula que, caso o fenômeno atue com forte intensidade, a produção nacional poderá ficar 17,6 milhões de toneladas abaixo de um cenário de neutralidade climática, diferença equivalente a aproximadamente 9,7%.
No cenário considerado pela empresa, a produção cairia de 181,2 milhões para 163,6 milhões de toneladas. Além disso, a diferença poderia representar cerca de R$ 33 bilhões no Valor Bruto da Produção (VBP).
O número chama atenção, mas precisa ser interpretado corretamente: os R$ 33 bilhões representam um risco econômico potencial, e não uma perda financeira já confirmada. O estudo busca dimensionar o que poderia ocorrer caso condições observadas em eventos anteriores de El Niño forte voltem a atingir as principais regiões produtoras.
NOAA confirma El Niño forte no horizonte da safra
O alerta ganha relevância porque os indicadores climáticos internacionais mostram que o fenômeno não é apenas uma hipótese distante.
Em seu boletim de 8 de outubro, o Climate Prediction Center, ligado à NOAA dos Estados Unidos, informou que o El Niño continua se fortalecendo e apontou probabilidade superior a 83% de manutenção de um evento forte a muito forte até o trimestre janeiro-março de 2027.
Além disso, a projeção oficial da NOAA divulgada em outubro aponta 100% de probabilidade de condições de El Niño entre outubro e janeiro, com enfraquecimento gradual esperado posteriormente. Ainda assim, o próprio órgão ressalta que um fenômeno intenso aumenta a chance de impactos típicos, mas não garante que todas as regiões apresentarão exatamente o mesmo padrão de chuva e temperatura.
Para o produtor brasileiro, portanto, o cenário exige acompanhamento constante: existe um fenômeno climático forte em curso, porém seus impactos serão diferentes conforme região, solo, época de plantio e distribuição das chuvas.
Centro-Oeste concentra a maior ameaça
A principal preocupação está no coração da produção brasileira de soja.
Segundo o levantamento da Serasa Experian, Mato Grosso poderia registrar uma diferença de 9,7 milhões de toneladas entre o cenário neutro e aquele com El Niño forte. Em Goiás, essa diferença chegaria a aproximadamente 4 milhões de toneladas.
Somados, os dois estados responderiam por quase 80% da redução estimada nacionalmente.
Esse comportamento está ligado, sobretudo, ao risco de irregularidade das chuvas e temperaturas elevadas em áreas do Centro-Oeste. Como resultado, períodos de estiagem ou veranicos durante fases críticas, como floração e enchimento de grãos, podem limitar o potencial produtivo das lavouras.
Mato Grosso e Goiás podem concentrar praticamente quatro de cada cinco toneladas da diferença projetada pelo estudo.
O mercado já acompanha esse risco. Análises divulgadas neste mês destacam que episódios fortes anteriores, incluindo 2015/16 e 2023/24, foram acompanhados por perda de produtividade em Mato Grosso. Ao mesmo tempo, projeções privadas continuam trabalhando com uma safra brasileira acima de 180 milhões de toneladas caso os impactos climáticos sejam menores que os considerados no cenário mais severo.
Produtividade pode perder cinco sacas por hectare
Outro dado importante aparece quando a análise deixa o volume total e chega dentro da propriedade.
A Serasa Experian estima produtividade média nacional de 3.282 quilos por hectare, aproximadamente 55 sacas por hectare, em um cenário de El Niño forte.
Em condições de neutralidade climática, o rendimento poderia atingir 3.622 quilos por hectare, ou cerca de 60 sacas por hectare. Portanto, a diferença chega a aproximadamente 340 quilos, ou quase seis sacas por hectare.
A área considerada pelo estudo chega a 49,9 milhões de hectares, crescimento de 1,8% frente ao ciclo anterior.
Ou seja: o Brasil pode plantar mais soja e, ainda assim, colher menos caso a produtividade seja severamente atingida pelo clima.
Para o produtor, esse ponto merece atenção especial. Afinal, custos de sementes, fertilizantes, defensivos, máquinas, arrendamento e crédito permanecem presentes mesmo quando a produtividade decepciona.
Rio Grande do Sul pode seguir caminho oposto
Curiosamente, o mesmo El Niño que aumenta o risco em parte do Centro-Oeste pode beneficiar algumas áreas do Sul.
O estudo calcula que o Rio Grande do Sul poderia produzir 5,5 milhões de toneladas a mais no cenário de El Niño forte do que em uma situação climática neutra, principalmente pela tendência de maior disponibilidade de chuva.
Historicamente, a irregularidade hídrica representa um dos principais problemas para a soja gaúcha. Por isso, anos com maior precipitação podem elevar o potencial produtivo.
No entanto, chuva demais também traz problemas. Neste início de safra, o excesso de umidade já atrasou atividades de implantação das lavouras no Rio Grande do Sul, enquanto áreas do Paraná também enfrentaram dificuldades causadas pelo elevado volume de precipitações.
El Niño não significa simplesmente “seca” ou “chuva”: o efeito depende de onde, quando e em que quantidade a precipitação ocorre.
Norte também merece atenção com água e logística
Além do Centro-Oeste, o Norte do Brasil acompanha outro risco relevante.
Relatórios recentes apontam possibilidade de chuvas abaixo da média e temperaturas acima do normal em partes da região, cenário capaz de afetar tanto a implantação das lavouras quanto os níveis dos rios utilizados para o transporte da produção agrícola.
Essa questão interessa diretamente ao arco produtor que utiliza os corredores do Norte para escoar soja e milho. Afinal, uma restrição hídrica mais intensa pode atingir não apenas a lavoura, mas também a logística.
Para o agro, o risco climático não termina na porteira: ele pode chegar aos rios, estradas, armazéns e corredores de exportação.
Estudo não é previsão definitiva de quebra da safra
Apesar dos números expressivos, é fundamental manter cautela.
A própria Serasa Experian destaca que a análise não representa uma previsão oficial de produção nem confirma uma quebra de 9,7%. Trata-se de uma simulação construída para mensurar a exposição da agricultura brasileira caso um El Niño forte reproduza padrões climáticos e produtivos observados anteriormente.
Além disso, tecnologia, manejo, escolha de cultivares, época de semeadura, perfil do solo e distribuição regional das chuvas podem alterar significativamente os resultados.
Por outro lado, ignorar o alerta seria igualmente arriscado.
Com um El Niño forte já identificado pelos centros meteorológicos, planejamento deixa de ser apenas uma questão agronômica e passa a ser uma estratégia de proteção financeira da propriedade.
O produtor precisa olhar além da produção
Na prática, um eventual recuo da oferta brasileira também pode mexer com preços.
Uma produção menor tende a reduzir disponibilidade, mas isso não significa automaticamente maior rentabilidade para todas as propriedades. O resultado dependerá do volume efetivamente colhido, dos custos, da posição comercial de cada produtor, do câmbio, dos preços em Chicago e da demanda internacional.
Além disso, a segunda safra também merece atenção. O levantamento da Serasa analisou especificamente a soja de primeira safra, enquanto milho e demais culturas implantadas posteriormente poderão enfrentar condições diferentes conforme a evolução do fenômeno.
Alerta climático exige gestão
A safra 2026/27 começa com potencial produtivo elevado, mas também com um dos principais fatores de risco climático dos últimos anos no radar.
Se o cenário mais severo calculado pela Serasa Experian se concretizar, a soja brasileira poderá perder 17,6 milhões de toneladas em relação a uma condição climática neutra, colocando cerca de R$ 33 bilhões do VBP sob risco.
Contudo, o impacto não será uniforme. Enquanto Mato Grosso e Goiás aparecem como os maiores pontos de vulnerabilidade, o Rio Grande do Sul pode encontrar condições mais favoráveis de produtividade caso a chuva chegue em quantidade e momento adequados.
Em suma, para quem produz, o momento exige monitoramento climático, manejo ajustado, controle de custos, estratégia comercial e capacidade de reagir rapidamente. No campo, o El Niño não pode ser controlado; porém, a exposição financeira e produtiva pode ser melhor administrada.
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Fontes:
Serasa Experian / CNN Brasil / Conab / G1
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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