El Niño pode ser o mais forte desde 1950, alertam NOAA e OMM

Novas projeções internacionais apontam um El Niño de intensidade excepcional, com pico previsto entre dezembro de 2026 e o início de 2027, elevando a preocupação com os impactos climáticos sobre a safra brasileira.

O El Niño 2026/27 ganhou um novo e preocupante capítulo nesta quinta-feira, 8 de outubro, depois que a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA) confirmou que o fenômeno continua se fortalecendo no Pacífico Equatorial. Segundo o Climate Prediction Center, existe probabilidade superior a 83% de manutenção de um El Niño forte a muito forte até o trimestre janeiro-março de 2027, colocando a atual temporada entre os episódios climáticos que mais exigirão planejamento do agronegócio brasileiro.

Ao mesmo tempo, a Organização Meteorológica Mundial (OMM) projeta que a anomalia média de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4 poderá chegar a aproximadamente +3,7°C entre outubro e dezembro de 2026, com tendência de pico próximo de dezembro. Portanto, embora ainda existam incertezas sobre os efeitos específicos em cada região, o produtor rural entra em um período decisivo da safra sob um sinal climático de elevada intensidade.

NOAA vê possibilidade de evento histórico desde 1950

O boletim mais recente da NOAA mostra que as temperaturas do Pacífico Equatorial avançaram novamente durante setembro. Partes do Pacífico Equatorial oriental já apresentavam anomalias superiores a +4°C, enquanto o índice Niño 3.4 alcançou aproximadamente +2,1°C e o Niño 3 chegou a +3°C.

Além disso, a NOAA calcula 83% de chance de o trimestre outubro-dezembro alcançar uma categoria considerada histórica pelo índice RONI, com valor de pelo menos +2,5°C. Para novembro-janeiro, essa probabilidade é estimada em 70%. Dessa forma, o órgão norte-americano considera possível um episódio capaz de superar, segundo essa metodologia, a força observada em eventos anteriores do registro iniciado em 1950.

É importante, no entanto, diferenciar os indicadores. A ocorrência de áreas com temperatura mais de 4°C acima da média não significa que todo o Pacífico esteja com essa anomalia, assim como a projeção de +3,7°C divulgada pela OMM representa uma média prevista para a região Niño 3.4 durante outubro, novembro e dezembro.

OMM prevê pico próximo de dezembro

A atualização climática global publicada pela OMM em 8 de outubro também aponta para uma nova intensificação das condições de El Niño nos próximos meses. O conjunto de modelos utilizados pela organização indica uma anomalia média próxima de +3,7°C no Niño 3.4 durante o último trimestre de 2026, com o aquecimento atingindo seu ponto máximo por volta de dezembro.

Com efeito, NOAA e OMM convergem sobre um ponto fundamental: o fenômeno continuará exercendo forte influência sobre a circulação atmosférica mundial durante um período crucial para a agricultura do Hemisfério Sul.

Ainda assim, a própria NOAA ressalta que um El Niño extremamente forte não garante automaticamente impactos extremos em todos os locais. A intensidade do fenômeno aumenta as probabilidades de determinados padrões climáticos, porém fatores regionais e outros oceanos também interferem no comportamento das chuvas e temperaturas.

Brasil já trabalha com El Niño muito forte

No Brasil, o alerta também partiu de instituições oficiais. O quarto boletim do Painel El Niño 2026-2027, elaborado por INMET, INPE e outros órgãos federais, apontou 95% de probabilidade de intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

As projeções indicam riscos bastante diferentes entre as regiões brasileiras. Enquanto o Sul tende a enfrentar maior frequência de chuvas e possibilidade de excesso de umidade, áreas do Norte, Nordeste e parte do Brasil Central ficam mais expostas à irregularidade das precipitações, calor elevado e redução do armazenamento de água no solo.

Para o agronegócio, portanto, não existe um único “efeito El Niño”. Cada cultura, região e estágio de desenvolvimento das lavouras pode responder de maneira diferente.

Soja 2026/27 entra no centro das atenções

A soja merece atenção especial porque o fortalecimento do fenômeno coincide justamente com implantação e desenvolvimento de uma das maiores safras agrícolas do país.

No início de outubro, produtores de algumas áreas de Mato Grosso e do Matopiba ainda conviviam com distribuição irregular das chuvas, embora precipitações recentes tenham ajudado na recuperação parcial da umidade do solo. Assim sendo, o avanço da semeadura continuará dependendo não apenas da ocorrência de chuva, mas principalmente de sua regularização.

O Painel El Niño também aponta possibilidade de chuva abaixo da média e temperaturas elevadas em setores do Centro-Oeste entre outubro e dezembro, especialmente no centro-norte de Mato Grosso e norte de Goiás. Nesses locais, a combinação entre calor e menor disponibilidade hídrica poderá dificultar o estabelecimento inicial de soja, milho e feijão.

Por outro lado, a Embrapa recomenda que produtores adotem medidas preventivas, entre elas respeito às janelas indicadas pelo Zoneamento Agrícola de Risco Climático (Zarc) e manutenção de cobertura de solo, práticas capazes de reduzir a exposição das lavouras aos extremos de umidade e temperatura.

Milho safrinha também pode entrar na zona de risco

O comportamento da soja poderá determinar outro ponto estratégico para o agro: a janela do milho segunda safra.

Caso irregularidades climáticas atrasem ou prolonguem a semeadura e, posteriormente, a colheita da soja, parte do milho poderá ser implantada mais tarde. Isso amplia a exposição da cultura ao período de diminuição das chuvas no outono de 2027, especialmente no Cerrado.

Especialistas ouvidos pelo Canal Rural já alertaram para esse encadeamento, indicando que uma janela mais longa da soja pode empurrar o plantio do milho para um período climaticamente menos favorável. Entretanto, esse cenário permanece como risco meteorológico, e não como quebra de safra já determinada.

Sul enfrenta problema oposto: excesso de água

Enquanto parte do Centro-Norte observa o risco de déficit hídrico, produtores do Sul têm outro motivo de preocupação.

Em anos influenciados pelo El Niño, a região apresenta maior propensão ao excesso de precipitações. Consequentemente, podem crescer os problemas relacionados ao encharcamento do solo, doenças fúngicas, dificuldades de aplicação de defensivos e fertilizantes, atraso nas operações agrícolas e perdas de qualidade durante a colheita.

A Embrapa destaca justamente a expectativa de chuva acima do normal no Sul, ao passo que Norte e Nordeste tendem a registrar redução ou maior irregularidade das precipitações.

Safra brasileira continua grande, mas clima virou variável-chave

Apesar dos riscos, o cenário não significa que uma quebra generalizada esteja contratada. Antes de mais nada, previsões climáticas trabalham com probabilidades e tendências.

A Conab estima atualmente que a produção brasileira de grãos em 2026/27 poderá alcançar 366,6 milhões de toneladas, crescimento de aproximadamente 1,4% frente ao ciclo anterior, caso as condições esperadas se confirmem. Para a soja, a companhia projeta área de 49,3 milhões de hectares e reconhece os riscos climáticos associados à temporada.

Além disso, no fim de setembro, a estatal registrava que as chuvas já favoreciam o início da semeadura de culturas da primeira safra em determinadas regiões. Portanto, o quadro exige acompanhamento permanente, mas não permite antecipar perdas de produção antes de observar a evolução das lavouras.

Produtor precisa transformar previsão em planejamento

Para quem produz, talvez esse seja o principal recado do atual cenário: um El Niño excepcionalmente forte não pode ser tratado como mera curiosidade meteorológica.

Planejamento de semeadura, escolha de cultivares, conservação da umidade do solo, escalonamento das operações, manejo fitossanitário, disponibilidade de máquinas, seguro rural e acompanhamento constante das previsões regionais tornam-se ainda mais relevantes.

Acima de tudo, decisões tomadas apenas com base na presença ou ausência de uma chuva isolada podem aumentar o risco. No início da safra, a regularidade das precipitações e a disponibilidade hídrica efetiva no perfil do solo são fatores tão importantes quanto o volume acumulado.

El Niño coloca safra diante de um teste decisivo

O El Niño de 2026 está em trajetória de fortalecimento e, segundo as previsões oficiais disponíveis em 8 de outubro, poderá permanecer forte ou muito forte até o primeiro trimestre de 2027. NOAA, OMM e instituições brasileiras convergem ao apontar um episódio de elevada intensidade, justamente durante meses estratégicos para a produção agropecuária.

Para o agro brasileiro, contudo, o desafio será regionalizado: excesso de chuva pode pressionar o Sul, enquanto irregularidade das precipitações e temperaturas elevadas demandam atenção principalmente em parcelas do Centro-Oeste, Norte e Nordeste. Dessa forma, a melhor defesa do produtor está no planejamento técnico, no manejo adequado e na atualização constante das informações meteorológicas.

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Fontes
NOAA / Organização Meteorológica Mundial (OMM) / Conab / Canal Rural

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

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