El Niño se aproxima do pico e acende alerta no agro brasileiro

Fenômeno pode alcançar intensidade histórica no fim de 2026 e coloca produtores diante de excesso de chuva no Sul, calor e déficit hídrico no Centro-Norte.

O El Niño 2026 entra em novembro em forte intensificação e pode se transformar em um dos episódios mais intensos observados desde 1950. Para o produtor brasileiro, porém, a preocupação vai muito além dos recordes meteorológicos: o fenômeno pode alterar a janela de plantio, aumentar o risco de perdas, provocar excesso de água em algumas regiões e agravar o déficit hídrico em outras.

A atualização do Climate Prediction Center, da NOAA, divulgada em 8 de outubro, informa que o El Niño continua ganhando força e apresenta 83% de probabilidade de atingir nível histórico no trimestre outubro-novembro-dezembro de 2026, considerando o indicador utilizado pelo órgão. Para novembro-janeiro, essa probabilidade permanece elevada, em 70%.

O dado reforça que o produtor entra em um dos períodos mais sensíveis da safra 2026/27 justamente quando o fenômeno climático se aproxima de sua fase mais intensa.

O INMET confirmou, em boletim divulgado em 29 de outubro, que as projeções indicam manutenção e intensificação do fenômeno, com elevada probabilidade de intensidade muito forte a partir de novembro. Entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, o instituto prevê maior chance de chuva acima do normal no Sul e em partes do Sudeste e Centro-Oeste, enquanto Norte e Nordeste enfrentam tendência oposta.

Novembro terá dois Brasis no campo

A previsão climática do INMET para novembro deixa evidente o contraste. Enquanto áreas do Sul, Mato Grosso do Sul e São Paulo podem registrar precipitações superiores à média histórica, grande parte do Centro-Norte brasileiro tende a conviver com chuvas irregulares ou abaixo do esperado.

No Sul, os excessos de precipitação podem ser significativos. O INMET projeta anomalias positivas de pelo menos 75 milímetros em várias áreas, enquanto regiões do noroeste e centro-oeste do Rio Grande do Sul podem superar a média histórica em mais de 150 milímetros.

Além disso, períodos prolongados de chuva e nebulosidade podem reduzir a radiação solar e dificultar operações no campo. O cenário exige atenção para encharcamento, doenças, dificuldades de entrada de máquinas e atrasos na execução de atividades agrícolas.

No Sul, portanto, o problema pode não ser falta de água, mas justamente água demais no momento errado.

Pará e Norte precisam redobrar atenção com falta de chuva

Para o Norte brasileiro, o cenário é praticamente inverso.

O INMET prevê chuvas abaixo da média principalmente em Pará, Tocantins e Roraima, além de setores do Acre, Rondônia e Amazonas. Ao mesmo tempo, as temperaturas deverão permanecer acima da climatologia em praticamente toda a região.

No Pará, a situação merece atenção especial. As projeções indicam que o sudeste paraense pode registrar temperaturas até 2°C acima da média durante novembro. A combinação entre calor e precipitação irregular aumenta a evaporação e acelera a perda de umidade do solo.

Para as áreas produtoras de soja do Pará e Tocantins, o próprio INMET alerta que a redução das chuvas pode dificultar a implantação da safra, causar emergência irregular e gerar falhas no estande das lavouras.

Nas áreas já plantadas, o déficit hídrico pode desacelerar o desenvolvimento vegetativo. Além disso, veranicos durante a estação chuvosa aumentam o risco de diferenças importantes entre talhões e propriedades próximas.

Para o produtor do Centro-Norte, entrar com a semeadura apenas porque ocorreram as primeiras chuvas pode representar um risco maior nesta safra.

A Embrapa também destaca que, no Pará, Amapá e nas áreas de transição com Maranhão e Mato Grosso, as principais preocupações estão no atraso das chuvas, prolongamento da estação seca, implantação das lavouras e maior risco de incêndios.

Centro-Oeste terá cenário desigual

No Centro-Oeste, não existe uma única previsão para toda a região.

Mato Grosso do Sul tende a encontrar maior disponibilidade hídrica, especialmente em algumas áreas do estado. Por outro lado, Mato Grosso, Goiás e Distrito Federal apresentam maior risco de irregularidade ou déficit de precipitação.

Segundo a Embrapa, o período mais crítico para seca em partes do Centro-Oeste está projetado entre novembro de 2026 e janeiro de 2027. A instituição alerta que atrasos nas primeiras chuvas podem comprometer o plantio da safra de verão e, posteriormente, afetar a janela de culturas em sucessão à soja, como milho e algodão.

Esse ponto é especialmente importante porque uma semeadura mais tardia da soja pode empurrar a implantação da segunda safra para períodos climaticamente menos favoráveis.

Assim sendo, não é apenas a produtividade da cultura principal que está em jogo. O calendário inteiro da propriedade pode sofrer efeitos em cadeia.

Calor acima da média atinge praticamente todo o Brasil

O segundo grande componente do cenário é a temperatura.

O boletim do INMET aponta que novembro deverá apresentar valores acima da média em todas as regiões brasileiras. Os maiores desvios são esperados no Centro-Oeste e no Sudeste, embora Norte e Nordeste também enfrentem calor elevado.

Em várias áreas de Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, São Paulo, Pará, Tocantins, Piauí e Bahia, as temperaturas podem alcançar desvios próximos de 2°C acima da climatologia.

Para o agro, isso significa maior evapotranspiração, aumento da demanda hídrica das culturas e maior pressão sobre pastagens, animais e reservatórios.

Além disso, temperaturas elevadas combinadas com baixa umidade podem ampliar o perigo de incêndios e comprometer a disponibilidade de água, principalmente nas regiões Norte e Nordeste.

El Niño pode afetar também a pecuária e a logística

Embora grande parte da atenção esteja concentrada na soja, milho e demais culturas de verão, os reflexos não ficam restritos às lavouras.

Na pecuária, períodos prolongados de calor e menor precipitação podem reduzir a recuperação das pastagens e pressionar a disponibilidade de água para os animais. Consequentemente, algumas propriedades podem precisar antecipar decisões de suplementação, reserva de forragem e manejo do rebanho.

No Norte, existe outro risco particularmente relevante: a navegação.

A Embrapa alerta que a redução e a irregularidade das chuvas podem provocar queda nos níveis dos rios, com possíveis impactos sobre produção agropecuária, transporte, navegação e abastecimento.

Para uma região na qual os rios funcionam como verdadeiras rodovias, níveis muito baixos podem elevar custos e dificultar o deslocamento de insumos, animais e produtos agrícolas.

Projeção sobre mortes por calor exige cautela

O forte El Niño também despertou preocupação além do setor produtivo.

Uma projeção atribuída ao Climate Impact Lab estima aproximadamente 857 mil mortes adicionais associadas ao calor no mundo entre junho de 2026 e março de 2027. Para o período entre outubro de 2026 e março de 2027, a estimativa apresentada para o Brasil é de aproximadamente 19 mil mortes adicionais relacionadas ao calor.

Entretanto, é fundamental interpretar corretamente esses números.

As estimativas são resultados de modelos estatísticos e não representam uma contagem de mortes já confirmadas. Elas combinam temperaturas observadas, previsões climáticas, vulnerabilidade populacional e relações estatísticas entre calor e mortalidade.

Ainda assim, o alerta reforça a necessidade de atenção aos trabalhadores rurais expostos diretamente ao sol, principalmente durante períodos de temperaturas extremas.

Produtor terá de administrar excesso e falta de água

O El Niño 2026/27 demonstra, mais uma vez, que o desafio climático brasileiro não pode ser resumido simplesmente a “seca” ou “chuva”.

Enquanto produtores do Sul poderão ter de lidar com solo saturado, excesso de precipitação, menor radiação solar e dificuldade operacional, agricultores do Pará, Tocantins, Matopiba e partes do Centro-Oeste precisarão acompanhar atentamente a regularização das chuvas.

Por isso, a recomendação técnica mais importante neste momento é evitar decisões baseadas apenas em calendário.

Monitoramento climático de curto prazo, armazenamento de água no solo, conservação do solo, escolha correta da janela de plantio e planejamento das operações passam a ser ferramentas decisivas para proteger produtividade e margem. A Embrapa reúne, inclusive, dezenas de medidas específicas de mitigação de riscos para diferentes regiões e sistemas produtivos.

Novembro abre período crítico para o agro

O fim de 2026 coloca o agronegócio brasileiro diante de um El Niño potencialmente excepcional. Embora o comportamento exato do fenômeno continue sujeito a atualizações, os principais centros meteorológicos concordam que o evento permanece muito forte e continuará influenciando o clima brasileiro nos próximos meses.

Para quem produz, a questão central não está apenas em saber se haverá mais ou menos chuva, mas onde ela cairá, quando chegará e por quanto tempo permanecerá. No Sul, excesso hídrico pode limitar operações e produtividade; no Centro-Norte, a irregularidade das precipitações pode comprometer a implantação das lavouras e pressionar pastagens e recursos hídricos.

Em suma, o produtor que acompanhar previsão, umidade do solo, reservas hídricas e condições reais de sua propriedade terá melhores condições para atravessar um dos períodos climáticos mais desafiadores da safra 2026/27.

Para aprofundar o planejamento da propriedade, gestão de riscos, produção e administração rural, conheça também a Fazenda Planejada, plataforma de cursos, e-books e livros do Ruralbook, criada para levar informação prática e conhecimento ao produtor que busca decisões mais eficientes dentro e fora da porteira.

Fontes:
NOAA/CPC / INMET / Embrapa / Canal Rural

“Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.”

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