Escassez do S500, preços próximos de R$ 8 e entregas limitadas já deixam máquinas paradas justamente na abertura da safra 2026/27.
A falta de diesel no Rio Grande do Sul deixou de ser apenas uma preocupação para se transformar em problema operacional no início da safra de verão 2026/27. Em Pedras Altas, na Zona Sul gaúcha, produtores de arroz que já haviam iniciado a semeadura precisaram interromper atividades por falta de combustível. Ao mesmo tempo, máquinas destinadas à preparação de áreas de soja estão paradas enquanto agricultores aguardam novas entregas.
O problema ocorre em um momento particularmente delicado. O calendário regular para a soja no Rio Grande do Sul começa em 1º de outubro, enquanto a implantação do arroz já está em andamento em diversas regiões. Portanto, qualquer atraso na disponibilidade do combustível pode reduzir a capacidade do produtor de aproveitar períodos favoráveis de solo e clima.
Segundo levantamento do Instituto Rio Grandense do Arroz citado pelo Jornal do Comércio, até 24 de setembro haviam sido semeados 155,6 mil hectares de arroz, equivalentes a aproximadamente 18% dos 861,8 mil hectares projetados para a safra 2026/27. Na Zona Sul, onde estão alguns dos relatos de maior dificuldade, apenas 11,1% da área prevista estava implantada.
S500 vira principal gargalo para o produtor
A maior dificuldade relatada pelo setor está na obtenção do diesel S500, amplamente utilizado em máquinas agrícolas e veículos pesados. A própria Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) informa que esse produto vem perdendo participação gradualmente para o S10 no mercado nacional. No primeiro semestre de 2026, foram comercializados 9,02 milhões de metros cúbicos de S500 no Brasil, queda de 5,1% frente ao mesmo período de 2025.
Ainda assim, no campo gaúcho a demanda continua relevante. Relatos encaminhados pela Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) apontam falta de S500 em localidades como Pelotas e Restinga Seca, além de limitações de volume em outras regiões. Em Caçapava do Sul, por exemplo, um fornecedor que recebeu 10 mil litros restringiu as entregas a 3 mil litros por produtor.
Em Cruz Alta, segundo informações reunidas pela Farsul, os Transportadores-Revendedores-Retalhistas, conhecidos como TRRs, estavam limitando pedidos e sem garantir entrega imediata. Já em Santa Bárbara, havia registro do S10 a R$ 7,30 por litro, enquanto não existia S500 disponível para entrega direta às propriedades.
Dessa forma, mesmo onde existe combustível, a quantidade pode não ser suficiente para sustentar uma jornada normal de trabalho. Em Pedras Altas, agricultores chegaram a buscar apenas 200 ou 400 litros por vez nos postos. Dependendo da potência e da operação executada, esse volume pode ser consumido rapidamente por uma máquina agrícola.
Preço do diesel também assusta o setor
Além da disponibilidade física, o custo virou outro componente importante da crise. Um produtor de Pedras Altas relatou ter adquirido combustível anteriormente por aproximadamente R$ 6,02 por litro e, ao solicitar uma nova carga, recebeu cotação próxima de R$ 7,90, ainda sem disponibilidade imediata.
Em Lavras do Sul, o diesel S10 chegou a ser reportado a R$ 7,70 por litro, enquanto o S500 permanecia indisponível no fornecedor consultado. Portanto, o produtor enfrenta uma combinação perigosa: combustível mais caro, menor previsibilidade de entrega e uma janela agrícola que não pode simplesmente ser transferida para outro período.
Os dados oficiais da ANP também mostram que os preços variam significativamente conforme município e estabelecimento. A Agência mantém levantamentos semanais justamente para acompanhar o comportamento do mercado de combustíveis em diferentes regiões do país.
Para o agro, a conta pode se espalhar por praticamente toda a estrutura de custos. O diesel movimenta tratores, pulverizadores, colheitadeiras, caminhões e diversas outras operações. Assim sendo, uma elevação acentuada do combustível atinge não apenas a semeadura, mas também logística, aplicação de insumos e transporte da produção.
Farsul cobra providências e fiscalização
A Farsul afirma que vem comunicando os problemas às autoridades desde 11 de setembro. Em 25 de setembro, a entidade informou ter protocolado mais dois ofícios junto à ANP pedindo medidas urgentes para enfrentar as restrições de abastecimento no Estado.
Posteriormente, diante da continuidade dos relatos, a entidade encaminhou novo documento à Agência reunindo informações de produtores, sindicatos rurais e fornecedores. O material aponta diferenças expressivas entre municípios, desde ausência completa do S500 até limitação de volumes e falta de previsão para entrega.
A preocupação do setor é objetiva: agricultura depende de janela. Diferentemente de outras atividades econômicas, muitas operações agrícolas precisam ocorrer dentro de intervalos determinados pelas condições de solo, umidade, temperatura e desenvolvimento das culturas.
Petrobras disponibiliza 14 milhões de litros de S500
Como resposta emergencial, surgiu no fim de setembro a expectativa de reforço no fornecimento. Segundo a Farsul, após tratativas com a ANP e a Petrobras, foram disponibilizados 14 milhões de litros de diesel S500 para ampliar o atendimento aos TRRs do Rio Grande do Sul.
No entanto, a existência da cota não significa automaticamente que o abastecimento esteja normalizado. Em 29 de setembro, produtores ainda relatavam restrições, ausência de produto e dificuldades para garantir volumes suficientes. Portanto, o ponto decisivo passa a ser a velocidade com que esse combustível chegará aos revendedores e, principalmente, às propriedades rurais.
A própria Farsul afirmou que pretende acompanhar a distribuição para verificar se o volume efetivamente chegará à ponta da cadeia. O setor entrou na fase de maior consumo justamente quando arroz e soja começam a disputar capacidade logística e combustível para as operações de campo.
Governo descarta desabastecimento generalizado
Apesar dos relatos registrados no Rio Grande do Sul, o governo federal diferencia a situação regional de um cenário de falta generalizada no Brasil. Em 22 de setembro, o ministro André de Paula descartou risco nacional de desabastecimento e classificou como especulativas as previsões de uma falta ampla de combustível, embora reconhecendo a existência de situações pontuais.
Ao mesmo tempo, o governo federal regulamentou mecanismo de subvenção econômica destinado a produtores e importadores de diesel rodoviário enquanto persistir a instabilidade provocada pelo cenário internacional. A medida ocorre em um ambiente de preocupação com oferta, custos de importação e tensões geopolíticas que afetam o mercado mundial de petróleo e derivados.
A ANP, por sua vez, mantém painéis atualizados sobre comercialização, logística e operação dos TRRs. A Agência informa que esses dados permitem acompanhar fornecimento, distribuição e movimentação dos combustíveis no país.
O que a crise significa para o produtor rural?
Para o agricultor, o maior risco não está somente no preço do litro. O problema mais grave é perder tempo produtivo.
Se uma propriedade não consegue abastecer tratores quando as condições de solo permitem a entrada das máquinas, pode perder uma janela que não necessariamente voltará poucos dias depois. Além disso, o atraso em uma operação pode comprometer as seguintes, ampliando o custo e a pressão sobre equipes e equipamentos.
Ainda assim, os dados disponíveis não sustentam, neste momento, a afirmação de que todo o Rio Grande do Sul enfrenta um desabastecimento completo. Há forte diferença entre municípios e fornecedores. O quadro mais preciso, portanto, é de escassez regionalizada e distribuição irregular, especialmente do S500, mas com impactos reais já registrados na atividade agrícola.
Safra precisa de diesel, não de incerteza
O reforço de 14 milhões de litros representa uma tentativa importante de aliviar a situação. Contudo, para o setor produtivo, o resultado será medido menos pelo anúncio e mais pela chegada efetiva do combustível às fazendas.
A safra brasileira é realizada dentro de janelas técnicas apertadas e movimenta uma cadeia que sustenta produção, exportações, empregos e abastecimento. Por isso, garantir previsibilidade na oferta de diesel durante plantio e colheita deve ser tratado como questão logística estratégica.
Em suma, o Rio Grande do Sul entra em outubro com uma corrida contra o relógio. O arroz já registra interrupções pontuais, a soja começa sua principal janela de implantação e produtores precisam decidir diariamente se haverá combustível suficiente para colocar as máquinas no campo. Até que as entregas sejam normalizadas, os 14 milhões de litros prometidos serão fundamentais, mas o verdadeiro teste será fazer o diesel sair da distribuição e chegar ao tanque do produtor.
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Fontes:
ANP / Farsul / Jornal do Comércio / Correio do Povo / Canal Rural / Notícias Agrícolas
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