Feijão-preto acumula valorização expressiva em 2026, enquanto oferta restrita de grãos de qualidade, clima e avanço da nova safra mantêm produtores e compradores atentos.

O preço do feijão voltou a ganhar força no mercado brasileiro em outubro. Entre os dias 15 e 22, as cotações avançaram principalmente pela menor disponibilidade de lotes de boa qualidade e pelas compras pontuais do varejo para recomposição de estoques. O movimento foi liderado pelo feijão-preto, enquanto o carioca registrou comportamento mais moderado e diferenças importantes entre regiões e padrões de qualidade.
O cenário mostra que o mercado não enfrenta apenas uma oscilação passageira: a oferta ajustada, os estoques reduzidos e as incertezas sobre a nova safra mantêm pressão sobre as cotações.
Segundo o Indicador de Preços Cepea/CNA, o feijão-preto tipo 1 registrou alta média de 2,70% entre 15 e 22 de outubro, com valorização em todas as regiões acompanhadas naquele período. Em Sorriso (MT), o avanço chegou a 4,52%, enquanto Itapeva (SP) apresentou alta de 1,44%.
Além disso, dados disponíveis até 27 de outubro mostram que o movimento continuou em importantes praças. Naquela data, a saca de 60 quilos do preto estava cotada a R$ 285,21 em Curitiba, R$ 281,01 na Metade Sul do Paraná e R$ 283,57 no Oeste Catarinense.
Feijão-preto é o grande destaque de 2026
O avanço de outubro ganha ainda mais relevância quando analisado dentro do comportamento do mercado ao longo do ano.
Na primeira quinzena de outubro, o feijão-preto já acumulava valorização de 9,72% no mês. No acumulado de 2026 até aquele momento, a alta chegava a expressivos 87,96%, segundo o levantamento Cepea/CNA.
Para comparação, o feijão-carioca de qualidade superior acumulava valorização de 36,23% no ano, enquanto os lotes intermediários registravam 38,06%.
O feijão-preto, portanto, tornou-se o principal destaque de valorização do mercado em 2026, apoiado sobretudo pela escassez relativa de produto.
O movimento já havia aparecido em setembro. No mês, o carioca nota 9 ou superior avançou 10,81%, enquanto o carioca notas 8 e 8,5 valorizou 11,50%. O preto, por sua vez, ganhou 10,69%.
Qualidade passou a valer ainda mais dinheiro
Apesar da tendência positiva, o mercado não apresenta alta uniforme.
Para o feijão-carioca peneira 12 e nota 9 ou superior, a valorização média foi de 0,64% entre 15 e 22 de outubro. Itapeva teve alta de 1,91%, enquanto Barreiras (BA) e Sorriso registraram recuos.
Já os lotes com notas 8 e 8,5 avançaram, em média, 1,17%, embora também tenham ocorrido quedas em algumas regiões.
Na prática, características como coloração, umidade e padrão comercial estão pesando diretamente na negociação.
Em um mercado com disponibilidade curta, o produtor que consegue entregar feijão de melhor padrão encontra maior poder de negociação.
Essa seletividade aparece também nas cotações mais recentes. Em 27 de outubro, o carioca superior alcançava R$ 353,47 por saca em São Paulo, enquanto no Leste Goiano era negociado a R$ 313,64 e no Noroeste de Minas, a R$ 319,83.
Estoques ajudam a explicar a valorização
A explicação para os preços passa diretamente pelo tamanho da oferta brasileira.
A produção nacional da safra 2025/26 foi estimada em aproximadamente 2,95 milhões de toneladas, queda de 3,6%, enquanto os estoques finais foram projetados em apenas 98,1 mil toneladas.
Para 2026/27, projeções da Conab apresentadas pelo Cepea indicam produção próxima de 2,93 milhões de toneladas, redução estimada de 0,7% sobre a temporada anterior.
Embora os estoques finais possam alcançar 135,8 mil toneladas, esse volume representaria apenas cerca de 2,7 semanas do consumo interno, de acordo com a análise divulgada pela CNA.
Isso significa que uma eventual recuperação dos estoques não elimina, por enquanto, o quadro de abastecimento ajustado.
Ao mesmo tempo, a demanda não está aquecida de forma indiscriminada. Compradores continuam seletivos e fazem aquisições pontuais, o que pode impedir movimentos ainda mais intensos de valorização.
Nova safra vira peça-chave para o mercado
A atenção agora passa para a primeira safra 2026/27.
O início do plantio enfrentou atrasos. Até 9 de outubro, a semeadura nacional alcançava 18,1% da área prevista, contra 21,1% no mesmo período do ano passado. Instabilidades climáticas vinham dificultando os trabalhos.
Posteriormente, o plantio avançou, mas as condições regionais continuaram exigindo acompanhamento.
No Paraná, por exemplo, o plantio havia chegado a 65% da área prevista, ante 74% no mesmo período de 2025. Ao mesmo tempo, as chuvas dificultaram operações em algumas regiões e também afetaram o avanço da colheita paulista.
Além disso, projeções apontadas no início de outubro indicavam redução da área cultivada com a primeira safra no Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul.
Clima, área plantada e qualidade da próxima colheita serão decisivos para saber se a valorização continuará ou perderá força com a entrada de produto novo.
Mercado externo também chama atenção
Outro componente do cenário aparece no comércio internacional.
Em setembro, as exportações brasileiras de feijão somaram 49,1 mil toneladas, recuo de 49,6%, enquanto as importações cresceram 26,2%, alcançando 7,9 mil toneladas. Ainda assim, o saldo comercial permaneceu positivo em 41,2 mil toneladas.
No caso do feijão-preto, as importações da Argentina também funcionam como um fator capaz de limitar altas excessivas no mercado doméstico.
Por isso, embora a oferta interna ajustada seja favorável à sustentação das cotações, não há garantia de uma escalada contínua dos preços.
Cepea e CNA completam dois anos acompanhando o mercado
O atual movimento também coincide com os dois anos do levantamento de preços realizado pelo Cepea/Esalq-USP em parceria com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA).
A pesquisa passou a abranger 51 praças de comercialização, distribuídas por 15 estados e pelo Distrito Federal, alcançando todas as cinco regiões brasileiras.
Como o feijão possui três safras ao longo do ano, as regiões efetivamente monitoradas variam conforme a disponibilidade do produto.
Para o produtor, a ampliação das referências de preços aumenta a transparência do mercado e oferece mais informação para decidir quando e como comercializar a produção.
O que o produtor precisa observar agora
No curto prazo, a tendência apontada pelo Cepea/CNA é de sustentação das cotações enquanto a oferta de produto de qualidade permanecer limitada. No entanto, a entrada da colheita paulista e o avanço da primeira safra podem ampliar gradualmente a disponibilidade.
Assim sendo, comercialização exige atenção. A valorização pode abrir oportunidades para quem possui produto disponível, especialmente de melhor padrão, mas clima, ritmo de colheita, demanda do varejo e evolução da nova safra podem rapidamente mudar o equilíbrio entre compradores e vendedores.
Para o agronegócio, o atual movimento é positivo ao devolver poder de negociação ao produtor, porém preço maior só se transforma em resultado quando acompanha produtividade, qualidade e controle de custos.
Em suma, o feijão entra no fim de outubro com mercado firme, estoques ainda apertados e uma primeira safra que será determinante para os preços dos próximos meses. O comportamento do feijão-preto merece atenção especial diante da forte valorização acumulada em 2026.
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Fontes:
Cepea / CNA / Conab / Notícias Agrícolas / Sociedade Nacional de Agricultura
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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