Fim da escala 6×1 pode encarecer alimentos, alerta Faesp

Federação alerta que a jornada 5×2 pode aumentar os custos no campo, agravar a falta de trabalhadores e comprometer a competitividade da produção rural.

A aprovação do fim da escala 6×1 pelo Senado Federal acendeu um sinal de alerta no agronegócio brasileiro. A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp) manifestou preocupação com os impactos da redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, especialmente sobre os custos de produção de alimentos e a disponibilidade de trabalhadores nas propriedades rurais.

Segundo a entidade, a adoção da jornada 5×2, com dois dias de descanso semanal, poderá comprometer a competitividade do setor, principalmente entre pequenos e médios produtores, que já enfrentam margens de lucro apertadas e dificuldades para absorver novas despesas.

O principal receio é que o aumento dos custos trabalhistas pressione o preço dos alimentos e prejudique a capacidade de produção no campo.

Produção rural não pode parar nos finais de semana

Diferentemente de diversas atividades urbanas, a agropecuária exige operações contínuas, inclusive aos sábados, domingos e feriados. Na pecuária, por exemplo, animais precisam receber alimentação, cuidados sanitários e manejo diário, enquanto a produção leiteira depende de ordenhas regulares.

Além disso, atividades como plantio, irrigação e colheita seguem condições climáticas e ciclos produtivos específicos, o que dificulta a interrupção das operações sem comprometer resultados.

O presidente da Faesp, Tirso Meirelles, reforçou que o campo não pode simplesmente suspender suas atividades e defendeu uma avaliação cuidadosa das consequências para produtores, empregos e abastecimento.

Para a federação, impor novos custos sem considerar as particularidades da produção agropecuária poderá comprometer justamente quem produz os alimentos consumidos pela população.

Custo da mão de obra pode subir até 22%, aponta estimativa

Custo por hora trabalhada

+22%

Alta estimada

Impacto projetado no PIB

−6,2%

Estimativa citada pela Faesp

Projeções do economista José Pastore mencionadas pela Faesp, não resultados econômicos já observados.

A Faesp cita estimativas do economista José Pastore segundo as quais a redução da jornada poderá elevar em aproximadamente 22% o custo por hora trabalhada, além de provocar uma retração imediata estimada em 6,2% no Produto Interno Bruto (PIB).

Embora sejam projeções e não efeitos comprovados, os números reforçam a preocupação com a capacidade de adaptação das propriedades rurais.

Para manter as operações, produtores poderão precisar contratar mais funcionários, reorganizar equipes ou ampliar gastos com horas extras, conforme as regras aplicáveis. Entretanto, essas alternativas encontram obstáculos, principalmente em regiões onde já existe escassez de trabalhadores qualificados.

O impacto tende a preocupar especialmente os pequenos e médios produtores, que possuem menor margem financeira para enfrentar novos custos operacionais.

Cafeicultura, fruticultura e pecuária estão entre as atividades mais vulneráveis

De acordo com a federação, determinadas cadeias produtivas poderão enfrentar dificuldades maiores com a adoção da escala 5×2, especialmente aquelas que dependem intensamente da mão de obra.

Entre as atividades destacadas estão a cafeicultura, a fruticultura, a horticultura, a pecuária leiteira e a produção animal.

Nesses segmentos, a necessidade de trabalhadores em períodos específicos ou de forma permanente torna mais complexa a reorganização das jornadas. Consequentemente, a redução das horas disponíveis poderá exigir novas contratações justamente em um mercado de trabalho que já apresenta dificuldades de recrutamento.

Além disso, produtores rurais convivem com juros elevados, restrições de crédito, oscilações dos preços agrícolas e riscos climáticos, fatores que aumentam a pressão financeira sobre as propriedades.

A preocupação é que o acúmulo de despesas reduza a rentabilidade, desestimule investimentos e prejudique a competitividade da agropecuária brasileira.

Aumento dos custos pode chegar ao preço dos alimentos

Outro ponto central do alerta da Faesp envolve os possíveis reflexos para o consumidor brasileiro.

Com a necessidade de reorganizar escalas e eventualmente ampliar equipes, propriedades rurais poderão enfrentar elevação dos custos de produção. Dependendo das condições de mercado, parte dessas despesas poderá ser repassada ao longo das cadeias de abastecimento.

No entanto, a entidade destaca que muitos produtores, especialmente os de menor porte, encontram dificuldades para repassar integralmente os aumentos aos preços de comercialização.

Dessa forma, o impacto poderá atingir tanto a rentabilidade do produtor quanto o preço final dos alimentos, embora a intensidade desses efeitos dependa de cada atividade e das condições de oferta e demanda.

O alerta da Faesp é que a mudança trabalhista, sem uma avaliação adequada dos impactos econômicos, poderá gerar consequências para toda a cadeia produtiva, do campo à mesa do consumidor.

Faesp defende valorização do trabalhador, mas cobra equilíbrio

Apesar das críticas à mudança, a Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo afirma reconhecer a importância da valorização dos profissionais rurais e da melhoria das condições de trabalho.

A entidade ressalta, entretanto, que alterações na legislação precisam considerar estudos econômicos, ganhos de produtividade e maior flexibilidade nas negociações coletivas.

Para o presidente Tirso Meirelles, uma agropecuária forte depende de trabalhadores qualificados e bem remunerados, mas também exige condições para que os produtores continuem investindo, empregando e produzindo.

Nesse sentido, a Faesp defende que a implementação das novas jornadas considere as particularidades de cada atividade econômica, buscando conciliar direitos trabalhistas, geração de empregos e competitividade.

Desafio será preservar a competitividade e o abastecimento

A preocupação apresentada pela Faesp reforça a necessidade de avaliar os impactos da redução da jornada sobre um setor cuja atividade não pode ser interrompida de acordo com os dias da semana.

Embora a PEC 221/2019 tenha recebido aprovação do Senado em 14 de outubro de 2026, por 75 votos a um, a mudança prevê uma transição gradual, com redução inicial para 42 horas e posterior chegada às 40 horas semanais, sem diminuição salarial. O texto segue para promulgação.

Para o agronegócio, o desafio será adaptar as relações de trabalho sem comprometer a produção, elevar excessivamente os custos ou colocar em risco a oferta de alimentos.

A Faesp defende, portanto, uma implementação equilibrada, que reconheça as necessidades dos trabalhadores, mas também preserve as condições econômicas de quem produz e gera empregos no campo.

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Fontes:
Canal Rural / Faesp / Senado Federal / Agência Brasil.

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

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