Alta do diesel, maior procura por caminhões e reajuste do piso mínimo colocam a logística novamente no centro das contas do produtor rural.
O frete rodoviário voltou a subir no Brasil em setembro de 2026 e atingiu média de R$ 8,77 por quilômetro rodado, segundo o Índice de Frete Rodoviário da Edenred (IFR), calculado a partir de operações administradas pela plataforma Repom. O valor representa avanço de 0,57% sobre agosto, quando a média estava em R$ 8,72 por quilômetro.
Para o agronegócio, a alta merece atenção: transporte mais caro pode reduzir margens justamente em um setor que movimenta grandes volumes por longas distâncias.
O movimento ocorreu em meio ao encarecimento do combustível e ao aumento da necessidade de transporte de cargas. Além disso, o bom desempenho das exportações do agronegócio ampliou a procura por caminhões em determinadas rotas, contribuindo para um ambiente de maior pressão sobre os preços.
É importante, no entanto, separar dois conceitos. Os R$ 8,77 por quilômetro correspondem à média observada pelo IFR no mercado. Já a ANTT estabelece pisos mínimos legais calculados conforme tipo de carga, distância, configuração do veículo e quantidade de eixos.
Diesel sobe e leva custos para dentro da porteira
O combustível aparece como um dos principais responsáveis pela pressão recente. Em setembro, o diesel S10 subiu 2,70% e atingiu média nacional de R$ 7,24 por litro, enquanto o diesel comum avançou 1,33%, para R$ 6,84, segundo o Índice de Preços Edenred Ticket Log.
Quando o diesel sobe, o impacto não fica restrito à transportadora: ele percorre toda a cadeia e pode chegar ao custo de insumos, ao escoamento da produção e à margem do produtor.
Isso é especialmente relevante para soja, milho, fertilizantes, defensivos, rações e outros produtos que percorrem centenas ou milhares de quilômetros entre fazendas, armazéns, indústrias e portos.
Ao mesmo tempo, o aumento da demanda por veículos para atender o fluxo do agronegócio reforça a disputa pela capacidade logística. Assim sendo, regiões com grande concentração de produção e longas distâncias até terminais ferroviários ou portuários podem sentir o efeito com maior intensidade.
ANTT reajusta piso mínimo após alta do diesel
No fim de setembro, outro fator entrou na conta. A ANTT publicou a Portaria SUROC nº 22/2026, atualizando os coeficientes dos pisos mínimos do transporte rodoviário de cargas.
A medida entrou em vigor em 30 de setembro de 2026 e foi acionada porque a variação do diesel S10 superou o limite de 5% previsto na legislação para uma revisão extraordinária. Para esse cálculo, a ANTT passou a utilizar R$ 7,33 por litro como preço de referência do diesel S10.
O reajuste do piso protege a remuneração mínima do transporte, mas também eleva o nível de atenção do produtor, tradings, cooperativas e empresas sobre o custo logístico.
Pela metodologia oficial, o valor mínimo é obtido pela fórmula:
Piso mínimo = distância × CCD + CC
O CCD representa o Coeficiente de Custo de Deslocamento, em reais por quilômetro, enquanto o CC corresponde ao Coeficiente de Carga e Descarga. Os valores variam conforme características da operação.
Além disso, o piso não funciona como teto. A própria ANTT esclarece que, acima do mínimo legal, o preço final pode ser livremente negociado entre contratante e transportador. Custos como lucro, impostos, despesas administrativas e determinados encargos também podem entrar nessa negociação.
CIOT aumenta controle sobre operações de transporte
Outra mudança importante de 2026 envolve o Código Identificador da Operação de Transporte (CIOT).
Desde 24 de maio de 2026, a geração do CIOT passou a ser obrigatória para todas as operações de transporte rodoviário remunerado de cargas abrangidas pela regulamentação, independentemente da categoria do transportador contratado.
Além disso, para operações de carga lotação, o sistema passou a impedir o cadastramento do CIOT quando o valor declarado estiver abaixo do piso mínimo aplicável. Dessa forma, a fiscalização passou a atuar de maneira mais preventiva.
Na prática, contratar frete abaixo do piso deixou de representar apenas risco de fiscalização posterior e passou a enfrentar bloqueios já no registro da operação.
A ANTT também disponibiliza uma calculadora oficial, na qual o usuário pode informar distância, tipo de carga, quantidade de eixos e demais características para verificar o piso mínimo aplicável.
O que isso significa para o produtor rural?
Para quem produz, a elevação do frete reforça uma discussão antiga: não basta colher muito se transportar a produção consome parcela crescente da receita.
Em regiões distantes dos portos e dos grandes centros consumidores, a logística pode determinar a competitividade de uma fazenda. Por causa disso, planejamento de armazenagem, momento de comercialização, negociação antecipada de fretes e escolha das rotas tornam-se ainda mais importantes.
Para o setor produtivo, o piso mínimo também apresenta duas faces. Por um lado, ele busca garantir remuneração mínima ao transportador e reduzir práticas predatórias. Por outro, aumentos sucessivos podem elevar despesas para produtores e empresas que já enfrentam custos elevados de insumos, armazenagem e financiamento.
O desafio para o agro é garantir remuneração justa ao transportador sem transformar a logística em um gargalo ainda maior para quem produz.
Pressão pode continuar em outubro
A Edenred avalia que outubro ainda pode registrar pressão sobre os fretes, tanto pela incorporação dos novos pisos quanto pela continuidade da demanda ligada ao escoamento agrícola.
Portanto, produtores, cooperativas e embarcadores precisam acompanhar não apenas o preço do diesel, mas também os reajustes regulatórios e a disponibilidade de caminhões nas principais rotas.
Em suma, o frete a R$ 8,77 por quilômetro acende um alerta para o agronegócio: logística eficiente deixa de ser apenas vantagem operacional e passa a ser cada vez mais decisiva para preservar margem e competitividade.
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Fontes
ANTT / Edenred Mobilidade / Notícias Agrícolas / Canal Rural / Reuters
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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