Presidente promete ampliar crédito, reformular o Plano Safra e fortalecer tecnologia no campo, mas encontrará produtores cobrando juros menores, seguro rural, segurança jurídica e competitividade.
A relação entre Lula e agronegócio entrará em uma nova fase após Luiz Inácio Lula da Silva ser reeleito presidente da República neste domingo, 25 de outubro. No quarto mandato, que começa em 2027, o governo terá pela frente uma agenda extensa de reivindicações do setor produtivo envolvendo crédito rural, juros, seguro, infraestrutura, tributação, segurança jurídica e abertura de mercados.
Ao mesmo tempo, o programa apresentado durante a campanha prevê mudanças importantes na política agrícola. Entre elas estão o fortalecimento do crédito rural, uma reformulação do Plano Safra, estímulos à modernização das propriedades, investimentos em irrigação, máquinas, conectividade e tecnologias destinadas ao aumento da produtividade.
O grande teste do novo governo será transformar promessas agrícolas em condições reais para que o produtor continue investindo, produzindo e competindo.
A equação, entretanto, será complexa. Embora governo e setor produtivo tenham interesses convergentes em áreas como infraestrutura, tecnologia, bioenergia e abertura de mercados, permanecem diferenças importantes principalmente em política econômica, questões ambientais, regularização fundiária e segurança jurídica.
Plano Safra plurianual pode mudar planejamento das propriedades
Uma das propostas que mais chama atenção é a criação de um Plano Safra com horizonte plurianual.
Em vez de concentrar as decisões de financiamento apenas em ciclos anuais, a proposta discutida durante a campanha busca ampliar a previsibilidade para investimentos de longo prazo, associando parte do financiamento a ganhos de produtividade, modernização e adoção de novas tecnologias.
Para o produtor, previsibilidade é especialmente relevante diante de atividades que exigem investimentos com retorno de vários anos, como irrigação, armazenagem, recuperação de pastagens, máquinas e integração de sistemas produtivos.
Além disso, o programa prevê diversificar fontes de financiamento por meio do mercado de capitais e de instrumentos privados ligados ao agronegócio.
Um Plano Safra plurianual pode ser positivo para o campo, mas seu efeito dependerá principalmente das taxas de juros, disponibilidade efetiva de recursos e estabilidade das regras.
Esse é justamente um dos pontos em que produtores e entidades pretendem pressionar o governo.
Juros estão entre as principais preocupações
Entidades do agronegócio reagiram ao resultado eleitoral destacando que responsabilidade fiscal e redução sustentável dos juros precisam ocupar lugar central na agenda econômica.
A Federação da Agricultura e Pecuária do Estado de São Paulo (Faesp), por exemplo, defendeu controle dos gastos públicos, simplificação tributária sem aumento de carga, redução de juros e maior previsibilidade para o setor produtivo.
A questão vai muito além da taxa básica da economia. Juros elevados atingem diretamente o financiamento de custeio, compra de máquinas, armazenagem e expansão das propriedades.
Além disso, o endividamento rural deverá continuar pressionando a agenda política. O programa de Lula fala em ampliar o financiamento e buscar juros compatíveis com a rentabilidade da agropecuária, porém não apresenta, até agora, uma nova proposta específica para renegociação ampla das dívidas rurais.
Crédito anunciado não significa necessariamente crédito acessível: para o produtor, o que importa é quanto o dinheiro custará na ponta e se haverá recursos suficientes no momento da safra.
Seguro rural será outro teste imediato
Ao lado do crédito, o seguro rural aparece entre os temas considerados prioritários pelo setor.
Eventos climáticos cada vez mais severos aumentaram a necessidade de instrumentos que permitam ao agricultor administrar perdas e manter capacidade financeira para iniciar uma nova safra.
Em levantamento realizado durante a campanha, crédito previsível, seguro rural, infraestrutura, segurança jurídica e abertura de mercados aparecem repetidamente entre os principais desafios que o próximo governo terá de enfrentar.
Por isso, a discussão não deverá se limitar ao volume previsto no Plano Safra. A execução orçamentária destinada ao seguro e a disponibilidade efetiva das apólices serão observadas de perto pelas entidades.
Agricultura familiar continuará recebendo atenção especial
Outro eixo importante será a agricultura familiar, segmento historicamente priorizado pelos governos petistas.
O Plano Safra da Agricultura Familiar 2026/2027 prevê R$ 85,2 bilhões em operações do Pronaf, além de políticas relacionadas a assistência técnica, seguro, mecanização, agroecologia e desenvolvimento rural.
Entre as condições atuais estão juros de 2% ao ano para determinadas operações destinadas à produção de alimentos e de 1% para sistemas agroecológicos, produção orgânica e produtos da sociobiodiversidade.
O governo também mantém instrumentos como Mais Alimentos, Ater, Programa de Aquisição de Alimentos, crédito fundiário e políticas direcionadas à agricultura familiar.
No entanto, o setor empresarial deverá cobrar equilíbrio.
O desafio será fortalecer a agricultura familiar sem reduzir a capacidade de financiamento, seguro e investimento da agricultura comercial que sustenta grande parte da produção e das exportações brasileiras.
Tecnologia, Embrapa e produtividade entram na agenda
Há, entretanto, áreas nas quais existe espaço relevante para aproximação.
O plano apresentado por Lula prevê fortalecimento da Embrapa, expansão da conectividade rural, ampliação do 5G e adoção de inteligência artificial no agronegócio. Também aparecem medidas envolvendo agricultura de precisão, irrigação, conservação do solo e recuperação de pastagens degradadas.
A CropLife Brasil, por sua vez, destacou após a eleição a necessidade de manter investimentos em ciência, pesquisa e desenvolvimento tecnológico, bem como aperfeiçoar marcos regulatórios usando critérios científicos, transparência e estabilidade.
Ciência, tecnologia e produtividade podem se tornar uma das principais pontes entre o governo e o agronegócio.
Quanto menor a interferência ideológica sobre decisões técnicas e maior a previsibilidade regulatória, maior tende a ser a capacidade do Brasil de atrair investimentos e incorporar novas tecnologias.
Bioenergia pode aproximar governo e setor produtivo
Outra oportunidade está na transição energética.
O programa prevê ampliar a produção e o uso de etanol de milho e cana, biodiesel, combustível sustentável de aviação, biogás e outras fontes derivadas de resíduos agroindustriais.
Essa agenda tem potencial para gerar novas fontes de receita no campo e aumentar a demanda por matérias-primas agrícolas.
Além disso, as misturas de 30% de etanol na gasolina e 15% de biodiesel no diesel, adotadas anteriormente, já ampliaram a participação dos biocombustíveis no mercado energético brasileiro.
A transição energética representa uma das maiores oportunidades econômicas para o agro no próximo mandato, desde que sustentabilidade venha acompanhada de competitividade.
Infraestrutura continuará decisiva para o Centro-Norte
Para produtores das regiões Centro-Oeste e Norte, poucos assuntos têm tanto impacto quanto logística.
O governo pretende dar continuidade ao Novo PAC e à carteira de concessões de rodovias e ferrovias, combinando investimentos públicos e privados.
Na prática, melhorar estradas, ferrovias, portos e estruturas de armazenagem pode reduzir uma das maiores desvantagens competitivas enfrentadas pelo produtor brasileiro: a distância entre as áreas de produção e os mercados consumidores.
Isso ganha importância ainda maior no chamado Arco Norte, responsável pelo escoamento crescente de grãos produzidos em Mato Grosso, Pará e outras regiões de expansão agrícola.
Produzir mais não basta: sem logística eficiente, parte da competitividade conquistada dentro da porteira desaparece no caminho até o porto.
Segurança jurídica pode ser ponto de maior tensão
Outra questão sensível será a segurança jurídica no campo.
A Faesp colocou entre suas prioridades a garantia do direito de propriedade e maior previsibilidade jurídica para quem produz.
Ao mesmo tempo, propostas envolvendo reforma agrária, regularização fundiária e políticas para comunidades tradicionais podem voltar a provocar disputas entre governo, produtores e Congresso.
Para o agronegócio, o ponto central será evitar que conflitos fundiários gerem insegurança para produtores que possuem propriedades regularizadas e desenvolvem atividades produtivas dentro da legislação.
Sem segurança jurídica não existe investimento de longo prazo: terra, crédito e patrimônio precisam estar protegidos por regras claras e estáveis.
Congresso fortalecido aumenta o peso da bancada ruralista
O novo mandato também terá uma característica política decisiva: o presidente precisará negociar com um Congresso no qual partidos de oposição conquistaram forte representação.
Segundo levantamento divulgado após as eleições, o PL elegeu 121 deputados federais e terá 28 senadores a partir de 2027. Além disso, a Frente Parlamentar da Agropecuária informou que cerca de 200 de seus integrantes foram eleitos ou reeleitos.
Durante a campanha, a diretoria da FPA declarou apoio ao candidato adversário de Lula.
Isso não significa que todas as votações serão divididas entre governo e agronegócio. Contudo, temas como tributação, legislação ambiental, direito de propriedade, crédito e políticas fundiárias provavelmente exigirão ampla negociação.
O agro chega a 2027 não apenas como potência econômica, mas também como uma das forças políticas mais organizadas dentro do Congresso Nacional.
Relação precisa sair do confronto e entrar nos resultados
A eleição terminou, mas a avaliação do novo governo pelo setor produtivo praticamente começa agora.
O Plano Safra 2027/2028 será uma das primeiras grandes políticas agrícolas inteiramente elaboradas durante o quarto mandato e funcionará como um importante indicador da direção escolhida pelo governo.
Além disso, produtores deverão acompanhar de perto a política econômica, seguro rural, renegociação de dívidas, tributação, infraestrutura, fertilizantes, comércio exterior e regulamentações ambientais.
Há espaço para convergência em inovação, bioenergia, logística, pesquisa, abertura de mercados e produtividade.
Ainda assim, os conflitos continuarão existindo.
Para o produtor rural, mais importante do que discursos de aproximação será perceber resultados concretos dentro e fora da porteira.
Em suma, Lula começa seu quarto mandato com a oportunidade de construir uma relação mais pragmática com um setor responsável por parcela estratégica da produção, das exportações e da economia brasileira. Para isso, o governo precisará compreender que fortalecer o agronegócio significa garantir condições para que o produtor continue investindo, assumindo riscos e produzindo alimentos, fibras e energia.
O campo cobrará diálogo, mas principalmente previsibilidade, competitividade e segurança para continuar produzindo.
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Fontes:
CNN Brasil / Notícias Agrícolas / Ministério do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar
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