Compradores reduzem a pressão por novos lotes, exportações perdem ritmo e perspectiva de 148 milhões de toneladas aumenta o desafio para os preços do cereal.
Os preços do milho voltaram a perder força no mercado brasileiro diante de uma combinação que exige atenção dos produtores: compradores abastecidos, menor urgência das indústrias, exportações em ritmo mais fraco e expectativa de crescimento da oferta nacional.
Nesta semana, o mercado físico apresentou negócios travados em diversas regiões. Segundo a Safras & Mercado, consumidores demonstraram tranquilidade em relação ao abastecimento, enquanto permaneceu elevada a diferença entre os valores oferecidos pelos compradores e aqueles pretendidos pelos produtores.
O resultado é um mercado no qual o comprador consegue esperar, enquanto o produtor precisa avaliar com ainda mais cuidado o momento de vender.
A pressão aparece diretamente nas cotações. Em 22 de outubro, o preço médio nacional acompanhado pela Safras & Mercado ficou em R$ 61,81 por saca, queda de 2,02% em relação ao final da semana anterior, quando estava em R$ 63,09.
Etanol cresce, mas usinas não precisam correr às compras
Um dos pontos mais importantes para entender o atual mercado é separar a demanda estrutural da necessidade imediata de compra.
A indústria brasileira de etanol de milho continua avançando e tende a consumir volumes crescentes do cereal. A própria Conab projeta alta de 6,6% no consumo interno de milho em 2026/27, impulsionada, entre outros fatores, pela expansão da produção de etanol.
Além disso, projeções de mercado indicam que o segmento poderá demandar aproximadamente 34 milhões de toneladas de milho em 2026/27, contra cerca de 29 milhões de toneladas no ciclo anterior.
Portanto, o etanol de milho não deixou de ser um importante motor de demanda. O que mudou, neste momento, é a urgência compradora.
Com indústrias e demais consumidores relativamente confortáveis com seus estoques e contratos, há menos necessidade de disputar cereal imediatamente no mercado disponível. Como resultado, as ofertas de compra ficam mais baixas e os negócios perdem velocidade.
Safra de 148 milhões de toneladas aumenta pressão
Ao mesmo tempo, o produtor olha para uma nova temporada potencialmente recorde.
O primeiro levantamento da Conab para 2026/27 estima que o Brasil poderá colher 148 milhões de toneladas de milho, crescimento de 2,4% sobre a temporada anterior.
A área destinada ao cereal, considerando as três safras, poderá atingir 23,7 milhões de hectares, avanço de 4,9%. Somente a primeira safra tem área projetada em 4,54 milhões de hectares, aumento de 10,7%.
Se a produção projetada se confirmar, o Brasil terá novamente uma oferta gigantesca para administrar entre consumo interno, armazenagem e exportação.
Esse cenário não significa, necessariamente, que os preços permanecerão em queda durante todo o ciclo. Clima, câmbio, produtividade, exportações e ritmo de consumo continuarão influenciando as cotações.
No entanto, uma expectativa elevada de produção reduz a necessidade de consumidores anteciparem agressivamente suas compras.
Exportação perdeu parte da força
Outro fator pesa sobre o mercado doméstico: o ritmo de exportação.
Dados da Secretaria de Comércio Exterior mostram que, nos primeiros 11 dias úteis de outubro, o Brasil exportou 2,866 milhões de toneladas de milho. A média diária ficou 11,8% abaixo da registrada em outubro de 2025. Em contrapartida, o preço médio por tonelada avançou 15%.
A Safras & Mercado já vinha alertando que a combinação de cotações mais fracas em Chicago e valorização do real reduziu a competitividade do milho brasileiro. Em setembro, os embarques somaram cerca de 5,4 milhões de toneladas, ante 7,6 milhões em setembro de 2025.
Quando a exportação perde velocidade, uma parcela maior do milho permanece disponível dentro do país, aumentando o poder de negociação dos compradores domésticos.
Além disso, preços de referência nos portos chegaram a recuar da faixa de R$ 72 a R$ 73 para aproximadamente R$ 65 a R$ 66 por saca, segundo avaliação apresentada pela Safras & Mercado no início de outubro.
Quanto vale o milho nas principais praças
A retração é observada em diferentes regiões produtoras e consumidoras.
| Praça | Preço recente | Variação semanal |
|---|---|---|
| Cascavel (PR) | R$ 58,00/sc | -3,33% |
| Campinas (SP) | R$ 65,00/sc | -3,70% |
| Rio Verde (GO) | R$ 58,00/sc | -3,33% |
| Rondonópolis (MT) | R$ 54,00/sc | -1,82% |
| Erechim (RS) | R$ 70,00/sc | -1,41% |
Os dados são referentes ao acompanhamento divulgado pela Safras & Mercado em 23 de outubro.
Campinas registrou uma das retrações mais fortes da semana entre as localidades acompanhadas, enquanto Rondonópolis, importante referência para Mato Grosso, chegou a R$ 54 por saca.
Queda do milho chega em momento delicado para o produtor
Para o setor produtivo, entretanto, preços menores encontram custos ainda elevados.
Em Mato Grosso, dados recentes do Imea indicam um Custo Operacional Efetivo de R$ 5.508,23 por hectare para o milho 2026/27, alta de 14,61% em relação à temporada anterior. Considerando preço médio de R$ 48,69 por saca e produtividade estimada de 119,64 sacas por hectare, a receita projetada ainda supera o custo efetivo em 5,75%.
Porém, quando entram depreciações e outros componentes, o Custo Operacional Total chega a R$ 6.070,09 por hectare, acima da receita projetada.
Esse talvez seja o maior alerta ao produtor: o milho pode ficar mais barato justamente quando produzir continua caro.
Por causa disso, a comercialização ganha ainda mais importância. Travamentos futuros, vendas escalonadas, acompanhamento da paridade de exportação e análise rigorosa do custo por saca tornam-se ferramentas fundamentais para proteger margem.
Estoques maiores ainda são risco para as cotações
A evolução dos estoques dependerá principalmente das exportações e do consumo doméstico nos próximos meses.
A Safras & Mercado vê risco de formação de estoques mais elevados caso os embarques permaneçam fracos.
A Conab, por outro lado, trabalha em seu primeiro balanço de 2026/27 com crescimento do consumo interno e continuidade de exportações expressivas. Para 2025/26, a estatal estima embarques de 43,9 milhões de toneladas e estoque de aproximadamente 16 milhões de toneladas em fevereiro de 2027. Para o encerramento de 2026/27, a projeção inicial é de 14,9 milhões de toneladas.
Essa diferença entre projeções mostra que o comportamento das exportações será uma das principais variáveis capazes de mudar a direção dos preços daqui para frente.
O que pode fazer o milho reagir?
Apesar da pressão atual, o cenário não está definido.
Uma recuperação mais forte de Chicago, alta do dólar, aceleração das exportações brasileiras, problemas climáticos durante a safra ou avanço mais rápido da demanda industrial podem devolver sustentação às cotações.
Ao mesmo tempo, o crescimento da indústria de etanol segue oferecendo uma importante alternativa de escoamento principalmente no Centro-Oeste.
A indústria de etanol continua estratégica para absorver milho brasileiro; entretanto, quando as usinas já estão cobertas, sua força como compradora imediata diminui.
Assim sendo, o produtor precisa acompanhar não apenas quanto milho será consumido pelo setor ao longo do ano, mas também em quais momentos essas empresas retornarão com maior intensidade às compras.
Mercado exige estratégia e não venda no impulso
Em suma, a queda atual do milho resulta de várias pressões simultâneas. Os compradores estão abastecidos, a exportação perdeu velocidade, Chicago e câmbio reduziram recentemente a paridade externa e o Brasil caminha para uma produção que pode atingir 148 milhões de toneladas em 2026/27.
Por outro lado, a demanda doméstica continua crescendo, especialmente pela indústria de etanol, enquanto fatores climáticos e cambiais ainda podem mudar rapidamente a configuração do mercado.
Para o produtor rural, o momento exige gestão: mais importante do que tentar adivinhar o fundo do mercado é conhecer o próprio custo, proteger margens e aproveitar oportunidades de comercialização quando elas surgirem.
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Fontes:
Conab / Safras & Mercado / Imea / Canal Rural
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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