Ranking dos 20 maiores produtores municipais revela a força de Mato Grosso e a expansão da soja pelo Cerrado, Matopiba e Centro-Norte brasileiro.
Quando se fala nos maiores produtores de soja do Brasil, nomes de estados como Mato Grosso, Paraná, Goiás e Rio Grande do Sul aparecem rapidamente. Entretanto, quando a produção é analisada município por município, o mapa apresenta algumas surpresas e mostra a impressionante concentração da oleaginosa em determinados polos agrícolas.
Levantamento divulgado pelo Canal Rural, a partir de dados da Produção Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, apresenta os 20 municípios que mais produzem soja no país. A lista evidencia principalmente a força de Mato Grosso, mas também chama atenção para municípios da Bahia, Goiás, Piauí e Mato Grosso do Sul.
A grande curiosidade está na concentração: somente Mato Grosso possui 11 municípios entre os 20 maiores produtores brasileiros.
Além disso, o ranking ajuda a mostrar como a soja avançou pelo interior do país, consolidando novas potências agrícolas no Cerrado e aproximando cada vez mais a produção dos corredores logísticos do Norte.
Quem lidera? O primeiro colocado pode surpreender
Quem pensa imediatamente em Sorriso (MT) como maior produtor municipal de soja pode se surpreender.
São Desidério, no oeste da Bahia, aparece na primeira posição, com 2.092.944 toneladas. Sorriso (MT) está praticamente empatado, com 2.084.520 toneladas.
A diferença entre os dois gigantes é de apenas 8.424 toneladas.
Na terceira posição aparece novamente a Bahia, com Formosa do Rio Preto, responsável por 1.958.821 toneladas. Logo depois vem Rio Verde (GO), com 1.572.500 toneladas.
A quinta colocação devolve Mato Grosso ao ranking com Nova Ubiratã, que registra 1.500.600 toneladas.
Portanto, somente os cinco primeiros municípios representam polos agrícolas capazes de produzir volumes impressionantes individualmente.
Os 20 maiores produtores municipais de soja
- São Desidério (BA) — 2.092.944 toneladas
- Sorriso (MT) — 2.084.520 toneladas
- Formosa do Rio Preto (BA) — 1.958.821 toneladas
- Rio Verde (GO) — 1.572.500 toneladas
- Nova Ubiratã (MT) — 1.500.600 toneladas
- Cristalina (GO) — 1.323.300 toneladas
- Querência (MT) — 1.230.000 toneladas
- Jataí (GO) — 1.170.000 toneladas
- São Félix do Araguaia (MT) — 1.164.706 toneladas
- Campo Novo do Parecis (MT) — 1.141.652 toneladas
- Nova Mutum (MT) — 1.140.000 toneladas
- Sapezal (MT) — 1.123.911 toneladas
- Paranatinga (MT) — 1.120.177 toneladas
- Diamantino (MT) — 1.014.303 toneladas
- Baixa Grande do Ribeiro (PI) — 1.007.447 toneladas
- Brasnorte (MT) — 966.817 toneladas
- Barreiras (BA) — 960.671 toneladas
- Luís Eduardo Magalhães (BA) — 926.476 toneladas
- Primavera do Leste (MT) — 904.800 toneladas
- Ponta Porã (MS) — 869.400 toneladas.
Juntos, esses 20 municípios somam aproximadamente 25,3 milhões de toneladas de soja, considerando os volumes apresentados no levantamento.
Mato Grosso é o grande protagonista do ranking
Se São Desidério conquista a liderança individual, quando a análise passa para a quantidade de municípios, Mato Grosso domina completamente o ranking.
São 11 cidades mato-grossenses entre as 20 maiores: Sorriso, Nova Ubiratã, Querência, São Félix do Araguaia, Campo Novo do Parecis, Nova Mutum, Sapezal, Paranatinga, Diamantino, Brasnorte e Primavera do Leste.
Isso significa que 55% dos municípios presentes no Top 20 estão em Mato Grosso.
O resultado ajuda a dimensionar a transformação ocorrida no Cerrado brasileiro durante as últimas décadas. Pesquisa, correção dos solos, desenvolvimento de cultivares adaptadas ao clima tropical, mecanização, agricultura de precisão e gestão profissional permitiram que regiões antes consideradas pouco apropriadas para agricultura intensiva se transformassem em algumas das áreas agrícolas mais produtivas do mundo.
Além disso, a soja normalmente não trabalha sozinha. Em muitas propriedades mato-grossenses, ela abre a safra para culturas posteriores, principalmente milho e algodão, aumentando a utilização das áreas, máquinas e estruturas ao longo do ano.
Bahia mostra força e coloca quatro municípios entre os maiores
Outro destaque é a Bahia.
Além de possuir o município líder nacional, o estado coloca quatro cidades no Top 20: São Desidério, Formosa do Rio Preto, Barreiras e Luís Eduardo Magalhães.
Todos estão localizados no oeste baiano, uma das regiões agrícolas mais tecnificadas do país e parte fundamental do Matopiba, fronteira agrícola formada por áreas do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.
O Piauí também aparece no ranking por meio de Baixa Grande do Ribeiro, com pouco mais de 1 milhão de toneladas.
Assim, Bahia e Piauí demonstram que a expansão da soja brasileira ultrapassou há muito tempo as regiões produtoras tradicionais.
O Cerrado tornou-se uma das principais bases da produção brasileira de grãos.
E Tocantins, Maranhão e Pará?
Apesar do forte crescimento agrícola, Tocantins, Maranhão e Pará não possuem municípios entre os 20 primeiros colocados desse ranking específico.
Isso, porém, não significa que estejam fora do mapa estratégico da soja.
Maranhão e Tocantins fazem parte diretamente do Matopiba, região que ganhou relevância nacional pela expansão da agricultura empresarial, disponibilidade de áreas produtivas e crescimento da infraestrutura relacionada aos grãos.
No Pará, a produção de soja também avançou e divide espaço com uma função cada vez mais importante: a logística.
O crescimento dos corredores do Arco Norte criou alternativas para o escoamento de parte relevante dos grãos produzidos no interior do Brasil, principalmente aqueles originados em Mato Grosso.
Portanto, existe uma ligação econômica cada vez maior entre as grandes áreas produtoras do Centro-Oeste, as novas fronteiras agrícolas e os estados do Norte.
O grão pode ser produzido a centenas ou milhares de quilômetros do litoral, mas precisa de estradas, ferrovias, hidrovias, armazéns e portos para chegar ao comprador.
Produzir milhões de toneladas é apenas parte do desafio
Existe outro dado que ajuda a compreender o tamanho dessa estrutura.
Segundo levantamento do IBGE sobre armazenagem agrícola, sete dos dez municípios brasileiros com maior capacidade instalada de armazenamento estavam em Mato Grosso no primeiro semestre de 2025.
Sorriso liderava nacionalmente, com capacidade de armazenamento de aproximadamente 5,6 milhões de toneladas.
Isso demonstra que os grandes polos agrícolas precisam desenvolver uma verdadeira estrutura econômica ao redor das lavouras.
Armazéns, oficinas, concessionárias, revendas de insumos, empresas de transporte, tradings, instituições financeiras, seguradoras, empresas de tecnologia e prestadores de serviços crescem junto com a produção.
Uma cidade que produz mais de 1 milhão de toneladas de soja deixa de ser apenas um município agrícola e passa a funcionar como um grande centro econômico do agronegócio.
A soja redesenhou parte do interior brasileiro
Talvez essa seja uma das maiores curiosidades escondidas atrás do ranking.
Boa parte desses municípios não está próxima dos grandes centros consumidores brasileiros. Mesmo assim, tornou-se protagonista de uma das maiores cadeias produtivas do país.
A agricultura levou investimentos, tecnologia, empresas, geração de empregos e infraestrutura para cidades do interior que passaram por profundas transformações econômicas.
Ao mesmo tempo, novos desafios surgiram.
Quanto maior a produção, maior é a necessidade de armazenagem, energia elétrica, conectividade, estradas, ferrovias, mão de obra especializada e segurança jurídica.
A logística do Norte ganha importância com o avanço da produção
A expansão da agricultura para o interior também mudou a lógica de escoamento da soja brasileira.
Durante décadas, grande parte da produção dependia fortemente dos portos das regiões Sul e Sudeste. Entretanto, com o crescimento de Mato Grosso e das novas fronteiras agrícolas, os corredores em direção ao Norte passaram a ocupar posição cada vez mais estratégica.
Nesse cenário, Pará e Maranhão ganham relevância devido aos terminais portuários e corredores utilizados para levar os grãos ao mercado internacional.
Tocantins também ocupa uma posição geográfica importante na conexão entre áreas produtoras e a infraestrutura direcionada ao Norte.
Consequentemente, a força dos grandes produtores de Mato Grosso não termina nas divisas estaduais. Ela movimenta uma extensa cadeia logística que atravessa diferentes regiões brasileiras.
Os “reis da soja” mostram como o agro brasileiro mudou
O ranking dos maiores produtores municipais apresenta muito mais do que uma disputa para saber qual cidade colhe mais soja.
Ele mostra como o eixo produtivo brasileiro avançou para o Cerrado, consolidou Mato Grosso como potência agrícola e criou novos polos no oeste da Bahia, Piauí e outras áreas de expansão.
Mato Grosso possui 11 dos 20 maiores municípios produtores. Bahia coloca quatro. Goiás aparece com três, enquanto Piauí e Mato Grosso do Sul completam a lista com um município cada.
Ao mesmo tempo, estados como Pará, Tocantins e Maranhão ganham importância na integração entre produção, expansão agrícola e logística.
Em suma, os “reis da soja” ajudam a contar uma história maior: a transformação do interior brasileiro pela agricultura e a formação de um corredor produtivo cada vez mais conectado ao Centro-Norte do país.
O próximo desafio será garantir que infraestrutura, armazenagem, logística, crédito, tecnologia e segurança jurídica avancem no mesmo ritmo da capacidade produtiva demonstrada dentro das propriedades rurais.
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Fontes:
IBGE / Canal Rural / Folha do Progresso
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