Pecuária perde Seu Zé da Camparino, referência da genética nacional

José Humberto Villela Martins construiu mais de seis décadas de seleção zebuína e transformou a Fazenda Camparino em uma das referências da genética pecuária brasileira.

Uma despedida de um dos grandes nomes do Zebu brasileiro

A pecuária brasileira perde um de seus grandes selecionadores. José Humberto Villela Martins, conhecido no meio pecuário como Zé Humberto ou Seu Zé da Camparino, faleceu neste domingo, 16 de agosto de 2026, conforme informação recebida pelo Ruralbook.

À frente da Fazenda Camparino, em Cáceres, Mato Grosso, José Humberto construiu uma trajetória que ultrapassou seis décadas dedicadas à seleção de bovinos zebuínos. Seu trabalho ajudou a consolidar a propriedade como referência em melhoramento genético, sobretudo das raças Nelore e Nelore Mocho, além de Sindi e Gir Leiteiro.

Mais do que proprietário de um criatório reconhecido, Seu Zé tornou-se uma escola para gerações de pecuaristas que aprenderam com ele que genética precisa gerar produtividade e resultado dentro da porteira.

Natural de Ituiutaba, Minas Gerais, José Humberto nasceu em uma família ligada ao campo e manteve essa tradição. Antes de chegar ao Mato Grosso, desenvolveu seu trabalho na Fazenda Mandengo, em Quirinópolis, Goiás. Em 1993, passou a concentrar sua atividade na Fazenda Camparino, em Cáceres. A própria ABCZ reconheceu essa trajetória ao conceder a ele o Mérito ABCZ, destacando sua dedicação à pecuária de corte e à seleção zebuína.

Mais de 60 anos selecionando Zebu

Poucos produtores conseguem associar seu próprio nome a uma linhagem de trabalho reconhecida nacionalmente. José Humberto conseguiu.

Em entrevista publicada pelo Giro do Boi, do Canal Rural, ele já aparecia como um dos mais tradicionais criadores de Nelore do país, com mais de 60 anos dedicados à seleção de zebu. Filho de produtores rurais, percorreu uma trajetória que passou por Minas Gerais, Goiás e, finalmente, Mato Grosso.

A Camparino informa que seu trabalho de seleção remonta a 1963. Ao longo das décadas, a propriedade passou a construir reconhecimento nacional e internacional em genética, trabalhando principalmente com Nelore, Nelore Mocho, Sindi e Gir Leiteiro.

Além disso, a visão de Seu Zé nunca esteve limitada à aparência do animal.

Para ele, o gado precisava cumprir sua função econômica.

Seu princípio era simples e extremamente atual: genética boa é aquela capaz de produzir carne, fertilidade, precocidade, eficiência e retorno financeiro ao pecuarista.

Essa filosofia acabou sintetizada em uma frase que acompanha a própria Camparino: “O Zebu que paga a conta”.

O equilíbrio entre o “olho do criador” e os números

Talvez uma das maiores contribuições de José Humberto à discussão moderna sobre genética tenha sido justamente sua defesa do equilíbrio.

Ele acompanhou uma transformação extraordinária na pecuária brasileira. Quando começou a selecionar animais, muitas decisões dependiam essencialmente da observação e da experiência acumulada pelo criador. Décadas depois, viu chegar avaliações genéticas, DEPs, ultrassonografia de carcaça, genômica, programas de melhoramento e uma enorme quantidade de informações.

Seu Zé incorporou essas tecnologias.

Entretanto, nunca abandonou o chamado “olho do criador”.

Em entrevista repercutida pelo Canal Rural em 2025, alertou para o risco de selecionar animais olhando exclusivamente para índices genéticos. Para ele, números deveriam caminhar ao lado do fenótipo, da funcionalidade e da observação prática do rebanho.

Na Camparino, essa filosofia ganhou escala.

O rebanho passou a utilizar avaliações de programas como ANCP, Geneplus/Embrapa e PMGZ, além de genotipagem, ultrassonografia de carcaça e mensurações relacionadas à fertilidade. Ao mesmo tempo, José Humberto mantinha forte pressão de seleção sobre as matrizes e reprodutores.

Era ciência somada à experiência de quem passou a vida olhando gado.

Camparino virou referência da genética brasileira

O resultado desse trabalho atravessou as porteiras de Cáceres.

Em visita técnica realizada à propriedade, a ABCZ destacou José Humberto como tradicional selecionador e afirmou que ele colaborou expressivamente para a expansão do Nelore no Brasil. Na ocasião, técnicos observaram na Camparino ganhos genéticos associados à redução do intervalo de gerações e à busca por elevada produtividade.

Além disso, a própria história recente dos animais produzidos pelo criatório ajuda a dimensionar o alcance dessa seleção.

Um dos exemplos é Ford FIV Camparino, apontado pela propriedade como um dos maiores resultados de seu programa genético. Durante a ExpoZebu 2023, o touro alcançou valorização de R$ 2,64 milhões, representando a combinação buscada por José Humberto entre precocidade, produtividade, beleza racial, carcaça e avaliação genética.

Outro exemplo é Genus Camparino, criado por José Humberto. Na avaliação ANCP de abril de 2026 disponível na ABS, o reprodutor apresentou MGTe de 31,14 e classificação entre o TOP 1%, demonstrando como a marca Camparino continuou produzindo genética competitiva mesmo depois de seis décadas de seleção.

Portanto, o legado não está apenas nas premiações ou nos leilões.

Está espalhado por rebanhos que carregam genética desenvolvida ao longo de décadas dentro da Camparino.

Do Nelore ao Sindi e Gir Leiteiro

Embora tenha se tornado especialmente conhecido pelo Nelore, Seu Zé era, acima de tudo, um apaixonado pelo Zebu.

Ao longo da trajetória, ampliou seu trabalho para Nelore Mocho, Gir Leiteiro e Sindi. No caso do Sindi, a Associação Brasileira dos Criadores de Sindi destaca que José Humberto incorporou a raça ao trabalho da Camparino há cerca de duas décadas, mantendo uma seleção consistente ao lado do Nelore.

Sua curiosidade pelo melhoramento nunca desapareceu.

Mesmo depois de décadas no setor, continuava acompanhando genealogias, escolhendo acasalamentos, avaliando reprodutores e discutindo os caminhos da pecuária.

Em uma de suas entrevistas, resumiu essa relação com o campo ao afirmar ser apaixonado pela criação de animais e pelo cotidiano da fazenda.

Reconhecimento construído dentro e fora da porteira

A contribuição de José Humberto também recebeu reconhecimento das entidades do setor.

Além do Mérito ABCZ, a Associação Nacional de Criadores e Pesquisadores (ANCP) homenageou o selecionador durante a Expogenética, em Uberaba, evidenciando sua ligação histórica com os programas de melhoramento e com a evolução da genética bovina brasileira.

Contudo, sua influência provavelmente pode ser medida de forma ainda mais significativa pela relação que construiu com outros criadores.

A Camparino tornou-se ponto de encontro de pecuaristas, técnicos, pesquisadores e estudantes. A Associação Brasileira dos Criadores de Sindi chegou a destacar a tradição de manter a propriedade aberta para amigos e estudantes interessados em aprender sobre Zebu e sobre a própria experiência de vida do criador.

Seu Zé não guardava conhecimento apenas para sua fazenda. Ajudou a formar uma cultura de seleção que ultrapassou gerações.

A sucessão mantém a marca Camparino

Nos últimos anos, José Humberto também acompanhou uma das etapas mais importantes de qualquer empresa rural: a sucessão.

A Fazenda Camparino já vinha destacando a participação dos netos Natalia e Matheus na continuidade do trabalho familiar. Dessa forma, uma seleção iniciada há mais de seis décadas passou a preparar uma nova geração para conduzir o patrimônio genético construído pela família.

Esse talvez seja um dos aspectos mais importantes de seu legado.

Animais passam. Safras passam. Tecnologias mudam. No entanto, uma filosofia de seleção construída durante uma vida inteira pode continuar produzindo resultados durante muitas gerações.

Um legado que permanece na pecuária brasileira

A despedida de José Humberto Villela Martins representa a perda de um daqueles pecuaristas que acompanharam e ajudaram a construir a transformação da pecuária nacional.

Ele viu a seleção passar do olhar experiente dentro do curral para a era da genômica. Entretanto, em vez de escolher entre tradição e tecnologia, buscou unir as duas.

Defendeu produtividade, fertilidade, precocidade e funcionalidade. Ao mesmo tempo, preservou características raciais e o conhecimento acumulado pelo homem do campo.

Seu Zé da Camparino deixa muito mais do que uma fazenda ou animais valorizados. Deixa genética, conhecimento, família, amigos e uma filosofia de produção que ajudou a melhorar o Zebu brasileiro.

Para o agronegócio, seu legado reforça uma lição fundamental: melhoramento genético não acontece de uma safra para outra. Ele exige décadas de decisões, persistência, observação, dados e compromisso com o resultado do produtor.

E talvez poucas expressões resumam tão bem sua trajetória quanto aquela que se tornou a identidade da Camparino: o Zebu precisa pagar a conta.

Aos familiares, amigos, colaboradores da Fazenda Camparino e a todos que conviveram com Seu Zé, o Jornalismo Ruralbook manifesta seus sentimentos e reconhecimento pela contribuição deixada à pecuária brasileira.


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Principais fontes utilizadas para compor a matéria

Fazenda Camparino / ABCZ / Canal Rural e Giro do Boi / ANCP / ABCSindi / SBA1 / ABS

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

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