Sorgo avança 20% no Brasil e ganha força com mercado chinês

Expansão da produção, abertura da China e novas demandas por ração e etanol colocam o cereal entre as alternativas mais promissoras da segunda safra brasileira.

A produção de sorgo no Brasil vive um dos momentos mais importantes de sua trajetória, impulsionada pela ampliação da área cultivada, pela abertura de novos mercados e pela busca dos produtores por culturas mais resistentes às adversidades climáticas. Dados recentes da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) apontam crescimento expressivo da cultura na safra 2025/26, enquanto a Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) destaca o avanço das exportações para a China.

Segundo o 11º Levantamento da Safra de Grãos 2025/26, divulgado pela Conab em agosto, a produção brasileira de sorgo deverá crescer cerca de 1,3 milhão de toneladas em relação à temporada anterior. O cereal está entre as culturas que mais contribuem para o crescimento da atual safra brasileira de grãos, estimada em 360,8 milhões de toneladas.

O avanço começou a ganhar força ainda no planejamento da segunda safra. No início de 2026, as projeções indicavam uma expansão de 11,3% da área de sorgo, de aproximadamente 1,63 milhão para 1,82 milhão de hectares. Entretanto, revisões posteriores da Conab mostraram um crescimento ainda mais expressivo da área efetivamente destinada à cultura.

O sorgo deixa, portanto, de ser apenas uma alternativa para áreas marginais e passa a ocupar posição estratégica dentro do planejamento agrícola brasileiro.

China abre uma nova avenida para o sorgo brasileiro

Um dos principais fatores por trás da valorização da cultura está no mercado externo. Em agosto de 2025, uma missão de técnicos da Administração-Geral das Alfândegas da China (GACC) percorreu propriedades e estruturas produtivas brasileiras como parte das negociações para abertura daquele mercado ao cereal nacional.

A missão, coordenada pela Abramilho, levou os técnicos chineses a propriedades rurais de Uberlândia, em Minas Gerais, além de unidades de beneficiamento. O objetivo era apresentar as condições de produção, segurança e qualidade do sorgo destinado à exportação.

Um ano depois, os efeitos comerciais começam a aparecer. Segundo a Abramilho, novos carregamentos de sorgo brasileiro já estão seguindo para a China, e a expectativa da entidade é alcançar cerca de 30 navios exportados ao longo de 2026.

A entrada da China muda a perspectiva comercial da cultura porque acrescenta um comprador de enorme escala a um mercado historicamente concentrado no consumo doméstico.

Além disso, a abertura internacional tende a melhorar a liquidez e oferecer mais possibilidades de comercialização ao produtor. Ainda assim, expansão de área exige cautela: antes do plantio, é fundamental avaliar compradores, logística regional, armazenagem e preços disponíveis.

Maranhão dispara e Norte-Nordeste amplia participação

A expansão não acontece apenas nas tradicionais regiões produtoras. Conforme os dados citados pela Abramilho, a produção nacional cresceu cerca de 20%, enquanto o Maranhão registrou avanço de aproximadamente 115%, tornando-se um dos grandes destaques dessa nova fase da cultura.

Outros estados do Centro-Norte também aparecem no movimento. Projeções divulgadas no início da safra indicavam aumentos de área de 58% no Maranhão, 16% no Tocantins e 12,9% no Pará. Mato Grosso e Mato Grosso do Sul também estavam entre os estados com crescimento esperado.

Parte desse movimento está relacionada ao atraso no plantio e na colheita da soja em algumas regiões. Como resultado, produtores que perderam a janela mais segura para o milho passaram a avaliar o sorgo como alternativa para aproveitar a segunda safra com menor exposição ao risco hídrico. A própria Conab identificou esse movimento em estados como Goiás e Maranhão.

Para regiões de clima mais desafiador, como áreas do Matopiba e do Centro-Norte, a rusticidade do sorgo pode transformar o cereal em uma ferramenta importante de diversificação e gestão de risco.

Menor exigência hídrica pesa na decisão do produtor

Do ponto de vista agronômico, o sorgo apresenta características que ajudam a explicar sua expansão. A cultura possui maior tolerância ao déficit hídrico, adapta-se melhor às janelas tardias e pode apresentar custos inferiores aos do milho em determinadas situações.

Além disso, segundo a Abramilho, o cereal oferece vantagens relacionadas à adaptação a solos de menor fertilidade e à pressão de determinadas pragas e doenças. Essas características tornam a cultura especialmente interessante quando a janela do milho segunda safra fica curta.

Isso não significa, contudo, que sorgo seja sinônimo de baixo investimento ou ausência de manejo. Rentabilidade depende de planejamento agronômico, produtividade, preço regional, logística e, principalmente, mercado comprador.

Ao mesmo tempo, a expansão precisa caminhar junto com a demanda. O aumento rápido da oferta pode pressionar preços em regiões onde não existam indústrias, tradings ou consumidores capazes de absorver o cereal.

Ração, etanol e bioenergia ampliam demanda

Historicamente, grande parte do sorgo brasileiro é destinada à alimentação animal. O cereal pode substituir o milho em diferentes formulações de rações e atende cadeias como bovinocultura, avicultura e suinocultura.

Entretanto, um novo vetor começa a ganhar relevância: a indústria de etanol de grãos amplia as possibilidades comerciais do sorgo e pode ajudar a criar demanda permanente em importantes regiões produtoras. A Abramilho aponta justamente o avanço do uso energético como uma das oportunidades para a cultura.

O cereal também possui aplicações em silagem, bioenergia e alimentação humana. Farinhas, flocos, barras de cereais e produtos sem glúten estão entre as possibilidades de industrialização, ampliando a diversidade de mercados.

Com efeito, quanto maior for a quantidade de destinos comerciais, menor tende a ser a dependência do produtor de um único comprador.

O sorgo pode virar protagonista da segunda safra?

Os números indicam que o cereal está mudando de patamar. O crescimento da área, a expansão no Centro-Norte, a demanda das indústrias de etanol e a abertura do mercado chinês formam uma combinação favorável para a cadeia produtiva.

Para o produtor rural, isso significa mais uma possibilidade de diversificação, principalmente quando o calendário da soja compromete a janela ideal do milho. Ainda assim, a decisão precisa estar apoiada em contas de custo por hectare, produtividade esperada e preço de venda.

A expansão também reforça a necessidade de investimentos em pesquisa genética, assistência técnica, armazenagem, logística e desenvolvimento de mercados. Afinal, produzir mais somente será sustentável economicamente se houver demanda capaz de acompanhar o crescimento da oferta.

Em suma, o sorgo começa a deixar definitivamente a condição de “plano B” para se consolidar como cultura comercial estratégica no agronegócio brasileiro. Para o setor produtivo, a ampliação das alternativas é positiva: oferece mais ferramentas para enfrentar riscos climáticos, aproveitar diferentes janelas agrícolas e buscar rentabilidade em um cenário de custos elevados.

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Fontes:
Conab / Abramilho / Notícias Agrícolas

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

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