Produção recorde, tolerância à seca e demanda de rações, etanol e exportações transformam o cereal em alternativa cada vez mais estratégica ao milho.
O sorgo no Brasil deixou de ser visto apenas como uma alternativa para quando a janela do milho fecha e passou a ocupar uma posição estratégica no planejamento agrícola. Na safra 2025/26, a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) estimou produção recorde de 7,35 milhões de toneladas, avanço de 20,4% em relação ao ciclo anterior. A área cultivada chegou a 2,17 milhões de hectares, crescimento expressivo de 32,9%.
O salto da área mostra uma mudança importante: o produtor não está recorrendo ao sorgo somente por falta de opção, mas começa a incorporá-lo como ferramenta de gestão de risco e de rentabilidade.
A expansão ocorre justamente em um cenário no qual clima, custos e segurança da segunda safra pesam cada vez mais nas decisões. Além disso, novas demandas industriais e comerciais começam a ampliar as possibilidades de escoamento.
Tolerância à seca abre uma janela importante na segunda safra
Uma das maiores vantagens do cereal está no campo. Segundo a Embrapa, grande parte do sorgo brasileiro é cultivada na segunda safra em regiões de Cerrado, ambiente em que estiagens e temperaturas elevadas podem comprometer outras culturas.
O sorgo possui um sistema radicular profundo, característica que contribui tanto para explorar água em camadas mais profundas quanto para a reciclagem de nutrientes no perfil do solo. A cultura também apresenta uma janela de plantio mais ampla quando comparada a outros cereais.
Além disso, publicação da Embrapa de 2025 destaca que a maior tolerância à seca permite ao produtor estender a janela de semeadura da segunda safra em relação ao milho. Outro diferencial é que o sorgo não é hospedeiro da cigarrinha responsável pela disseminação do complexo de enfezamentos que provoca prejuízos nas lavouras de milho.
Em outras palavras, quanto maior a incerteza climática na segunda safra, mais relevante tende a ficar o sorgo dentro da estratégia produtiva.
O custo também pesa nessa conta. Estudos e informações técnicas da Embrapa apontam menor custo de implantação em determinadas condições produtivas quando comparado ao milho. Portanto, o cereal pode reduzir a exposição financeira principalmente em plantios realizados mais tarde.
Ração animal continua sendo uma das grandes forças
Historicamente, um dos principais destinos do sorgo brasileiro é a alimentação animal. O cereal possui composição nutricional próxima à do milho e pode assumir parcela importante da fonte energética das dietas.
Dados técnicos reunidos pela Embrapa indicam valor energético próximo a 95% do milho para aves, enquanto determinados sorgos podem alcançar valores semelhantes aos do milho para suínos. Entretanto, o resultado depende da cultivar, da presença de taninos e da formulação correta da dieta.
Por isso, a afirmação de que o sorgo possui simplesmente “95% do valor nutricional do milho” exige cuidado. A equivalência varia conforme espécie animal, composição do grão e sistema nutricional.
Quando formulada corretamente, a dieta permite ampla substituição do milho por sorgo sem necessariamente comprometer o desempenho produtivo dos animais.
Além do sorgo granífero destinado às rações, híbridos forrageiros têm espaço na produção de silagem para bovinos. Assim, o cereal consegue participar tanto da agricultura comercial quanto dos sistemas de produção pecuária.
Etanol pode mudar o tamanho desse mercado
Se a alimentação animal consolidou o sorgo, a bioenergia pode abrir uma nova etapa de crescimento.
A indústria brasileira de etanol de cereais já começou a incorporar sorgo ao lado do milho. Em janeiro de 2026, por exemplo, o BNDES anunciou financiamento para uma nova biorrefinaria em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, projetada para utilizar milho, sorgo e outros grãos na produção de biocombustíveis.
Além disso, pesquisadores da Embrapa relataram que usinas de etanol de milho passaram a adotar sorgo em seus mixes de matéria-prima. O cereal pode apresentar custos agrícolas menores em determinadas regiões e desempenho industrial competitivo na produção de etanol e DDG.
Há também outras rotas tecnológicas. O sorgo sacarino, por exemplo, possui açúcares nos colmos e pode ser utilizado para produção de etanol de primeira geração, inclusive como matéria-prima complementar em períodos de menor disponibilidade de cana. Já o sorgo biomassa possui potencial energético e pode atender sistemas de geração de energia e tecnologias de biocombustíveis.
Para o produtor, o avanço das usinas significa algo ainda mais importante: a possibilidade de surgir um comprador industrial adicional para o cereal.
Esse fator pode ser decisivo. Afinal, uma das limitações históricas do sorgo sempre foi a menor liquidez comercial em algumas regiões quando comparado ao milho.
China adiciona outra avenida para o sorgo brasileiro
Ao mesmo tempo, o mercado externo começa a representar uma nova oportunidade.
O Brasil possui atualmente protocolo bilateral vigente para exportação de sorgo em grãos à China, segundo informações do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa). Empresas exportadoras precisam cumprir requisitos de registro, rastreabilidade, qualidade e sanidade vegetal.
A Conab registrou exportações brasileiras para China e Marrocos já no primeiro trimestre de 2026, embora tenha ressaltado que historicamente a maior parte da produção nacional ainda permaneça no mercado interno.
A combinação entre ração animal, etanol e exportação cria justamente o que o sorgo precisava para ganhar escala: diferentes canais de demanda.
Para o agronegócio, isso é especialmente relevante porque maior número de compradores tende a favorecer liquidez, competição regional pelo grão e previsibilidade comercial. Entretanto, esse movimento não ocorre de maneira uniforme e depende da proximidade de fábricas, armazéns, tradings e consumidores.
Alimentação humana abre um mercado de maior valor agregado
Outra frente ainda menor em volume, mas interessante em valor agregado, está na alimentação humana.
O sorgo é naturalmente livre de glúten, característica que permite sua utilização no desenvolvimento de farinhas e alimentos destinados inclusive ao mercado de produtos gluten-free. A Embrapa já pesquisa aplicações em cookies, bebidas, massas e outros alimentos.
Além disso, algumas cultivares possuem compostos fenólicos e outros componentes bioativos. O híbrido BRS 305, por exemplo, vem sendo estudado justamente para alimentação humana e apresenta características nutricionais e funcionais específicas.
Portanto, não é correto restringir o mercado de alimentos apenas às variedades “sem tanino”. Existem materiais com diferentes características destinados a aplicações distintas.
Embora esse segmento ainda esteja distante do volume consumido pela nutrição animal, ele mostra como o cereal pode gerar produtos de maior valor agregado.
Sorgo deixa de ser plano B para se tornar decisão estratégica
Os números da safra 2025/26 reforçam uma transformação que já vinha ocorrendo no campo brasileiro. Com 7,35 milhões de toneladas projetadas pela Conab e expansão superior a 30% na área, o sorgo entrou definitivamente no radar das grandes culturas comerciais brasileiras.
No entanto, o produtor precisa analisar mercado regional, logística, cultivar, época de plantio e destino da produção antes de ampliar a área. Resistência climática, sozinha, não garante rentabilidade.
Por outro lado, o cenário é favorável. A demanda da pecuária continua relevante, novas biorrefinarias ampliam o consumo industrial, a China representa uma nova possibilidade de exportação e a pesquisa desenvolve aplicações para alimentação humana e bioenergia.
Em suma, o sorgo começa a conectar três necessidades importantes do agro brasileiro: redução de risco climático, diversificação de mercado e melhor aproveitamento da segunda safra.
Para produtores que buscam profissionalizar decisões, reduzir riscos e melhorar o planejamento da propriedade, a plataforma Fazenda Planejada reúne cursos, e-books e livros voltados à gestão e ao desenvolvimento do negócio rural. Acesse os materiais educativos da Ruralbook e conheça conteúdos preparados para ajudar a transformar informação em resultado dentro da fazenda.
Fontes:
Conab / Embrapa / Ministério da Agricultura e Pecuária / BNDES
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
Jornalismo Ruralbook – A informação que vem do campo.
Conteúdos publicados no portal Ruralbook, com autoria do jornalismo Ruralbook e seus colunistas, são protegidos por direitos autorais. Caso sejam utilizados em outros meios, é obrigatório citar o canal Ruralbook como autor e incluir um link de redirecionamento para o portal. Essa medida visa garantir o reconhecimento da fonte e a disseminação de informações de qualidade no setor agro.



















