Novo socorro chega em plena colheita, após o diesel superar US$ 6 por galão e o endividamento agrícola americano caminhar para US$ 605 bilhões.
O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou um pacote de US$ 8 bilhões em auxílio aos agricultores dos EUA, direcionado a produtores afetados pelo aumento dos custos de produção, especialmente do diesel durante a colheita de 2026. Batizado de Harvest Fuel Relief Program (HFR), o programa prevê pagamentos únicos e será administrado pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, o USDA.
O anúncio ocorreu em 19 de outubro, durante um evento político em Park City, no Kansas, a pouco mais de duas semanas das eleições legislativas norte-americanas de 3 de novembro. As eleições de meio de mandato definem todas as 435 cadeiras da Câmara e parte do Senado dos Estados Unidos.
O pacote coloca mais US$ 8 bilhões de recursos públicos diretamente na estratégia norte-americana de sustentação da renda agrícola em um momento de forte pressão sobre as margens no campo.
Para o agronegócio brasileiro, o movimento merece atenção. Afinal, subsídios e programas de compensação capazes de reduzir perdas dos produtores norte-americanos podem influenciar decisões de plantio, capacidade de investimento e competitividade de commodities nas próximas safras.
Diesel acima de US$ 6 pressiona a colheita
O combustível se tornou um dos principais componentes da crise de custos enfrentada pelo produtor dos Estados Unidos. Dados oficiais da Administração de Informação de Energia dos EUA, a EIA, mostram que o diesel rodoviário atingiu média nacional de US$ 6,276 por galão em 19 de outubro. Em 21 de setembro, o valor havia alcançado US$ 6,529 por galão.
A escalada ocorreu em um cenário de restrições na oferta energética e tensões internacionais. Segundo a Farm Progress, o diesel chegou a subir mais de 65% após o início das ações militares norte-americanas contra o Irã. Para uma propriedade que consome milhares de galões em tratores, colheitadeiras, transporte e irrigação, portanto, alguns dólares adicionais por galão representam milhares de dólares a mais na conta final da safra.
Na agricultura, combustível caro não fica restrito ao tanque: ele se espalha pelos custos da colheita, transporte, irrigação e logística.
Além disso, o campo não tem liberdade para simplesmente suspender parte dessas operações. Quando a lavoura chega ao ponto de colheita, atrasos podem provocar perdas de produtividade e qualidade, o que reduz a capacidade do produtor de esperar por uma eventual queda dos preços do combustível.
Como funcionará o Harvest Fuel Relief Program
Ao contrário de um reembolso convencional de notas fiscais de combustível, o HFR utilizará uma fórmula uniforme para calcular parte das perdas estimadas da safra de 2026.
Segundo o USDA, o cálculo levará em consideração três grupos principais de informações:
- área plantada declarada à Farm Service Agency (FSA);
- estimativas de custos de produção elaboradas pelo Economic Research Service (ERS);
- projeções de produtividade e preços do relatório World Agricultural Supply and Demand Estimates (WASDE).
Os recursos virão da Commodity Credit Corporation (CCC) e os pagamentos serão operacionalizados pela FSA. As taxas específicas para commodities enquadradas no chamado Title I serão divulgadas em novembro. Para outras culturas elegíveis, a metodologia será anunciada posteriormente.
O produtor não receberá simplesmente o valor gasto a mais no posto: o auxílio será calculado com base em perdas econômicas modeladas pelo governo.
O USDA também informou que a contratação de seguro agrícola não será condição obrigatória para participar. Entretanto, até 20 de outubro, o governo ainda não havia divulgado a data exata de abertura das inscrições nem um calendário definitivo para o processamento dos pagamentos. Produtores elegíveis foram orientados a criar antecipadamente uma conta no Login.gov vinculada ao USDA.
Dívida rural dos EUA deve bater US$ 605 bilhões
O novo pacote aparece diante de uma situação financeira cada vez mais apertada nas propriedades norte-americanas.
A estimativa mais recente do Economic Research Service, braço econômico do USDA, aponta que a dívida total do setor agrícola deverá alcançar US$ 605,1 bilhões em 2026, crescimento nominal de 4,6% em relação ao ano anterior.
Desse total, aproximadamente US$ 399 bilhões correspondem a dívidas ligadas a imóveis rurais, enquanto outros US$ 206,1 bilhões estão relacionados a financiamentos não imobiliários.
Além disso, o USDA prevê piora nos indicadores de solvência do setor, porque as dívidas devem crescer mais rapidamente do que os ativos e o patrimônio dos produtores.
O dado de US$ 605,1 bilhões mostra que o problema do agricultor americano vai além do diesel: o campo dos EUA enfrenta custos elevados, margens pressionadas e maior alavancagem financeira.
Ao mesmo tempo, o USDA estima que a renda agrícola líquida, já descontada a inflação, recue 5,5% em 2026 na comparação com 2025.
Novo pacote se soma a US$ 12 bilhões anunciados anteriormente
O Harvest Fuel Relief Program não é uma medida isolada.
No fim de 2025, o governo norte-americano anunciou US$ 12 bilhões em pagamentos de transição aos agricultores, dos quais até US$ 11 bilhões foram destinados ao Farmer Bridge Assistance Program. O programa contemplou culturas como milho, soja, trigo, algodão, arroz, sorgo, amendoim e outras commodities.
Segundo o USDA, mais de 560 mil agricultores receberam recursos dessa iniciativa ao longo de 2026.
Além disso, em 5 de outubro, Trump assinou uma ordem executiva estabelecendo alívio temporário sobre determinados tributos federais incidentes sobre diesel e permitindo, sob condições específicas, o uso rodoviário do chamado diesel tingido, normalmente reservado a atividades fora de estrada. As medidas vigoram, conforme a ordem, até 31 de dezembro de 2026.
Portanto, somente os dois grandes programas emergenciais anunciados entre o fim de 2025 e outubro de 2026 somam US$ 20 bilhões em apoio anunciado ao setor agrícola norte-americano, ainda que tenham finalidades, públicos e regras diferentes.
Anúncio ocorre às vésperas das eleições
O momento do anúncio também colocou o programa no centro do debate político americano.
Trump apresentou o HFR durante uma viagem ao Kansas ligada à campanha para as eleições legislativas. A Reuters destacou que o anúncio ocorre enquanto o Partido Republicano procura preservar apoio em estados agrícolas diante do aumento do custo de vida e dos custos enfrentados pelo campo.
As eleições gerais estão marcadas oficialmente para 3 de novembro de 2026. Dessa forma, o pacote foi anunciado 15 dias antes da votação.
Entidades agrícolas, por sua vez, têm concentrado sua manifestação no aspecto econômico. A American Farm Bureau Federation recebeu positivamente a liberação de ajuda emergencial, mas também pediu que outros segmentos, como produtores de culturas especiais e pecuaristas, sejam considerados.
E o que isso representa para o agronegócio brasileiro?
Embora o dinheiro seja destinado exclusivamente aos produtores norte-americanos, o Brasil precisa acompanhar atentamente a dimensão dessas políticas.
Estados Unidos e Brasil disputam importantes mercados internacionais de commodities agrícolas. Assim, quando Washington utiliza recursos públicos para amortecer perdas decorrentes de custos elevados, consegue reduzir parte da pressão financeira enfrentada pelo produtor americano.
Isso não significa automaticamente aumento de área ou produção. No entanto, um agricultor financeiramente mais protegido tem maior capacidade de permanecer na atividade, financiar insumos e atravessar períodos de margens negativas, fatores que podem interferir na oferta mundial ao longo do tempo.
Para o produtor brasileiro, fica também uma comparação inevitável. Enquanto os Estados Unidos recorrem novamente a mecanismos bilionários para proteger sua base produtiva, competitividade agrícola não depende somente da eficiência dentro da porteira. Crédito, seguro rural, logística, política energética e previsibilidade de custos têm peso crescente na disputa pelos mercados internacionais.
O pacote de US$ 8 bilhões mostra o tamanho da pressão econômica atualmente enfrentada pela agricultura norte-americana. Diesel acima de US$ 6 por galão, renda real em queda e dívida projetada em US$ 605,1 bilhões ajudam a explicar por que Washington decidiu abrir novamente os cofres para sustentar parte da renda dos produtores.
Mais do que um auxílio para pagar combustível, o Harvest Fuel Relief Program revela uma política de proteção da capacidade produtiva norte-americana em um momento delicado para a rentabilidade agrícola.
Para o agronegócio brasileiro, o episódio reforça a importância de acompanhar não apenas os preços de soja, milho, trigo e petróleo, mas também os instrumentos utilizados pelos principais concorrentes internacionais para sustentar seus produtores. Em suma, numa agricultura global cada vez mais disputada, políticas públicas também entram na conta da competitividade.
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Fontes:
USDA / Reuters / Farm Progress / Federal Election Commission
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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