Exportação de milho recua e desafia projeção de 38 milhões

Brasil embarcou 5 milhões de toneladas a menos entre julho e setembro, enquanto Argentina ganha espaço e mercado interno disputa o cereal.

A exportação de milho brasileiro perdeu força justamente no período em que a segunda safra amplia a disponibilidade do cereal no país. Entre julho e setembro de 2026, o Brasil embarcou aproximadamente 11,81 milhões de toneladas, contra 16,85 milhões no mesmo período de 2025. Portanto, a diferença chegou a cerca de 5,04 milhões de toneladas, ou quase 30%.

O movimento aumenta o desafio para que os embarques brasileiros se aproximem das 38 milhões de toneladas no atual ciclo comercial, patamar que passou a ser adotado por agentes do mercado após projeções anteriores entre 42 milhões e 43 milhões de toneladas. Assim, mais do que uma meta oficial do governo, os 38 milhões representam atualmente uma referência de mercado para o desempenho das exportações.

Em setembro, os números reforçaram o sinal de alerta. Dados consolidados da Secretaria de Comércio Exterior, ligada ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, mostram embarques de 5,212 milhões de toneladas, contra 7,563 milhões um ano antes, queda de 31,1%.

Além disso, a média diária caiu de aproximadamente 343,77 mil para 248,19 mil toneladas, retração de 27,8%. Apesar do volume menor, o preço médio de exportação aumentou 20,4%, para aproximadamente US$ 238,9 por tonelada, limitando a queda da receita. Em setembro, as vendas externas do cereal movimentaram cerca de US$ 1,245 bilhão.

Argentina entra forte na disputa pelo mercado mundial

Um dos principais componentes desse cenário está do outro lado da fronteira. A Argentina chegou a 2026 com elevada disponibilidade de milho e condições agressivas para disputar compradores internacionais.

A Bolsa de Comércio de Rosário classificou o milho argentino como um dos mais competitivos do mercado mundial. Em maio, a instituição indicava vantagem entre US$ 5 e US$ 11 por tonelada sobre o produto brasileiro em alguns destinos do Sudeste Asiático.

Posteriormente, a força exportadora ficou ainda mais evidente. Somente em julho, a Argentina embarcou 5,14 milhões de toneladas de milho, o maior volume mensal registrado na série acompanhada pela entidade. Entre março e julho, os embarques argentinos já alcançavam 22,21 milhões de toneladas.

A produção argentina de milho 2025/26 também foi reestimada pela Bolsa de Rosário em 70,5 milhões de toneladas, ampliando a oferta disponível para o mercado internacional. Como resultado, compradores que tradicionalmente poderiam recorrer ao milho brasileiro passaram a contar com uma alternativa altamente competitiva.

Para o produtor brasileiro, portanto, o problema não está na capacidade produtiva do país, mas na intensidade da disputa pelos mercados consumidores durante uma janela estratégica de comercialização.

Irã reduz compras e destinos ficam mais disputados

Outro fator citado por agentes do mercado é a redução da demanda do Irã, historicamente um destino relevante para o milho brasileiro. Analistas ouvidos pelo Notícias Agrícolas relacionam a desaceleração às dificuldades logísticas e ao ambiente de instabilidade no Oriente Médio.

Com menor participação iraniana, o milho brasileiro precisa disputar compradores mais pulverizados, justamente quando Argentina e Estados Unidos também apresentam grande oferta.

Além disso, analistas do setor apontam que a valorização do real pode reduzir a competitividade das exportações. Isso acontece porque um câmbio menos favorável diminui a conversão das receitas internacionais em reais e pode reduzir o espaço para os exportadores pagarem preços mais elevados no mercado doméstico.

Demanda interna virou peça-chave para o milho brasileiro

Ao mesmo tempo em que as exportações desaceleram, existe um fator importante dando sustentação ao mercado: o consumo dentro do Brasil continua elevado.

A Conab estima o consumo interno de milho da safra 2025/26 em aproximadamente 95 milhões de toneladas. Mesmo com essa demanda elevada, a companhia projetava estoque de passagem de cerca de 15,58 milhões de toneladas ao final do ciclo.

A produção brasileira também permanece robusta. Em agosto, a estatal estimava uma safra total próxima de 143 milhões de toneladas de milho, sendo aproximadamente 111 milhões provenientes da segunda safra.

Por causa disso, o avanço das indústrias de etanol de milho, fábricas de ração e cadeias de proteínas animais assume importância crescente para absorver parte da produção que não encontra imediatamente o mercado externo.

A Agroconsult já havia estimado, em junho, crescimento de 7,3% no consumo brasileiro de milho, para um recorde de 105,5 milhões de toneladas em sua metodologia, destacando principalmente a expansão do etanol. Na mesma avaliação, a consultoria projetava exportações de 37 milhões de toneladas no ciclo 2025/26.

As diferenças entre estimativas refletem metodologias e períodos comerciais distintos. Ainda assim, a mensagem é semelhante: o consumo doméstico está ganhando importância na formação do balanço brasileiro de milho.

Menor exportação pode pesar sobre preços em algumas regiões

Para o produtor, entretanto, uma demanda doméstica forte não resolve automaticamente o problema provocado por exportações mais lentas.

A localização das indústrias consumidoras e dos corredores logísticos interfere diretamente no preço recebido em cada praça. Em Mato Grosso, por exemplo, regiões próximas às usinas de etanol podem encontrar maior competição pelo cereal. Por outro lado, áreas mais dependentes do fluxo para os portos podem sentir mais intensamente a ausência do exportador.

Em Goiás, analistas já observam menor liquidez em corredores tradicionalmente conectados ao Porto de Santos. Portanto, caso os embarques não acelerem, algumas regiões podem enfrentar maior disponibilidade local e dificuldade para sustentar preços, mesmo com o consumo brasileiro crescendo.

Vale lembrar que, até julho, o cenário parecia diferente. Segundo a Conab, o Brasil havia exportado 9,8 milhões de toneladas de milho entre janeiro e julho, volume 10,53% maior na comparação anual. Agosto e setembro mudaram essa fotografia.

No acumulado entre janeiro e setembro, os embarques chegaram a aproximadamente 19,7 milhões de toneladas, contra 23,31 milhões em igual período de 2025. Dessa forma, a vantagem registrada no começo do ano virou um déficit próximo de 3,6 milhões de toneladas.

Brasil terá de acelerar embarques na reta final

A partir de agora, a velocidade das exportações ganha ainda mais importância para o setor produtivo.

Segundo avaliação apresentada pelo analista Eduardo Vanin, seriam necessários 17 milhões de toneladas ou mais entre novembro e janeiro para o Brasil se aproximar dos 38 milhões de toneladas no ciclo considerado pelo mercado.

O desafio é relevante porque o Brasil tem produção para continuar como um dos grandes fornecedores globais. No entanto, preço, câmbio, logística, concorrência internacional e distribuição regional da demanda determinarão quanto desse milho efetivamente encontrará compradores externos.

Para o agronegócio brasileiro, a perda de ritmo merece atenção. Exportar menos não significa necessariamente crise, principalmente porque o crescimento do etanol e das cadeias de proteína animal cria novos consumidores dentro do próprio país. Ainda assim, quando o mercado externo perde força rapidamente, o impacto pode aparecer diretamente na liquidez e na formação de preços ao produtor.

Em suma, o Brasil continua com produção elevada e demanda doméstica crescente, porém precisará recuperar competitividade e acelerar embarques para reduzir o excedente regional e se aproximar das projeções de exportação para o ciclo.

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Fonte:
 Conab / Notícias Agrícolas 

Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.

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