Relatório do Copernicus aponta calor sem precedentes nos mares, avanço do nível do oceano e mudanças que podem ampliar riscos climáticos também para a produção agrícola.
O aquecimento dos oceanos atingiu um novo patamar e amplia o sinal de atenção para economias diretamente dependentes do clima, entre elas o agronegócio. A 10ª edição do Copernicus Ocean State Report, divulgada em 30 de setembro de 2026, aponta que o sistema oceânico global passa por mudanças rápidas em temperatura, nível do mar, química da água, gelo marinho e ecossistemas.
O dado de maior impacto envolve a quantidade de energia acumulada nas águas. Segundo informações associadas ao relatório, o conteúdo de calor oceânico aumentou em aproximadamente 23 zettajoules, volume equivalente a quase 40 vezes o consumo anual de energia da humanidade.
A Organização Meteorológica Mundial também confirma a tendência de longo prazo. Em 2025, o conteúdo de calor dos oceanos até 2 mil metros de profundidade alcançou o maior nível da série observacional iniciada em 1960. Além disso, a taxa de aquecimento entre 2005 e 2025 ficou mais de duas vezes acima da observada entre 1960 e 2005.
O ponto mais importante é que o oceano funciona como uma enorme reserva de energia do sistema climático. Quando essa reserva aumenta, os reflexos podem chegar muito além do litoral.
Nível do mar, acidificação e ecossistemas também preocupam
O avanço não ocorre apenas na temperatura. O nível médio global dos mares mantém trajetória de aceleração. A OMM aponta que, desde 2012, a velocidade de elevação ficou acima daquela registrada no início da era de monitoramento por satélite. Em 2025, o nível médio global estava aproximadamente 11 centímetros acima do observado no começo da série de altimetria, em 1993.
Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a acidificação. Cerca de 29% do dióxido de carbono proveniente das atividades humanas entre 2015 e 2024 foi absorvido pelos oceanos, segundo a OMM. A NOAA explica que essa absorção modifica a química da água, reduz o pH e dificulta a formação de estruturas calcárias de corais, moluscos e outros organismos.
Os recifes dão uma dimensão do problema. Entre janeiro de 2023 e setembro de 2025, 84,4% dos recifes de coral do planeta foram expostos a estresse térmico suficiente para provocar branqueamento, superando o recorde anterior registrado entre 2014 e 2017.
Em outras palavras, o recorde de temperatura está acompanhado por mudanças físicas, químicas e biológicas no sistema oceânico.
Mediterrâneo mostra intensidade das ondas de calor
O OSR10 também chama atenção para eventos regionais extremos. Em 2024, o Mediterrâneo registrou o maior número de dias com ondas de calor marinhas das duas décadas anteriores.
Além disso, a temperatura média da superfície do Mediterrâneo ficou 1,23°C acima da referência de 1982 a 2024. No longo prazo, a temperatura superficial desse mar aumentou cerca de 0,32°C por década entre 1982 e 2024, segundo dados divulgados pelo programa espacial europeu Copernicus.
Embora esses números sejam regionais, eles ajudam a demonstrar a velocidade das mudanças que já aparecem nos sistemas oceânicos.
Mas o que isso tem a ver com o agronegócio?
A ligação ocorre principalmente porque oceano e atmosfera trabalham de forma integrada. Mudanças na temperatura das águas interferem na circulação atmosférica, na distribuição de umidade e nos grandes padrões responsáveis pelo comportamento das chuvas.
Um dos exemplos mais conhecidos é o El Niño-Oscilação Sul (ENOS). A NOAA classifica o fenômeno como um dos principais controladores naturais do clima do planeta, capaz de alterar temperaturas, precipitações, incêndios, agricultura e pesca em diferentes continentes.
Isso não significa que todo aquecimento oceânico provoque automaticamente seca ou excesso de chuva sobre uma determinada fazenda. Entretanto, significa que compreender as condições dos oceanos se torna cada vez mais importante para interpretar e antecipar riscos climáticos.
No Brasil, esse ponto ganha peso especial em 2026. O Cemaden informou que o aquecimento do Pacífico associado ao El Niño pode provocar chuvas abaixo da média e temperaturas mais altas em partes do Norte e Nordeste, enquanto áreas do Sul ficam mais expostas a volumes elevados de precipitação. Para o Centro-Oeste, temperaturas superiores à média podem elevar a deficiência hídrica no fim da estação seca, com reflexos sobre pastagens, água para o rebanho e preparação da safra.
O Ministério da Agricultura também criou um grupo de trabalho específico para o El Niño. Em setembro, o Mapa recebeu da Embrapa 163 medidas para gestão dos riscos climáticos na agropecuária, voltadas especialmente à safra 2026/27.
Para o produtor, portanto, acompanhar os oceanos deixou de ser um assunto distante: temperatura da água, El Niño e circulação atmosférica podem ajudar a definir chuva, calor e risco produtivo meses depois.
Clima menos previsível exige mais gestão de risco no campo
Na prática, um ambiente climático mais quente exige maior atenção ao planejamento. Calendário de plantio, escolha de cultivares, conservação de água no solo, seguro rural, armazenamento, manejo de pastagens e acompanhamento de previsões meteorológicas passam a ganhar ainda mais importância.
O próprio INMET destaca que alterações associadas ao El Niño podem reduzir chuvas em regiões produtoras do Norte, Nordeste e partes do Centro-Oeste e Sudeste. Ao mesmo tempo, no Sul, excesso de umidade pode aumentar encharcamento, doenças fúngicas e dificuldades para plantio, aplicação de defensivos e colheita.
O IPCC já aponta, com alto grau de confiança, que extremos climáticos mais frequentes e intensos reduziram a segurança alimentar e hídrica em diversas regiões e que as mudanças climáticas desaceleraram o crescimento da produtividade agrícola global nas últimas décadas.
Por isso, o novo recorde dos oceanos deve ser observado pelo setor produtivo com atenção técnica, e não apenas como uma pauta ambiental. Quanto mais energia armazenada no sistema climático, maior a necessidade de monitoramento, ciência e gestão de riscos para proteger produção, renda e segurança alimentar.
Em suma, o relatório do Copernicus reforça uma realidade estratégica para o agro: acompanhar clima e oceanos passou a fazer parte da gestão moderna da propriedade. Para aprofundar conhecimentos sobre planejamento, administração e tomada de decisão no campo, conheça também a Fazenda Planejada, plataforma de cursos, e-books e livros com conteúdos educativos e informativos voltados ao produtor e à gestão rural.
Fontes:
Copernicus Marine Service / Organização Meteorológica Mundial (OMM) / Ministério da Agricultura e Pecuária
Essas fontes foram utilizadas para garantir uma abordagem precisa e detalhada da matéria.
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